Ter ou Não Ter, Eis a Gratidão

Ter ou Não Ter, Eis a Gratidão

Enchente RIO - Foto Antonio Lacerda/EFE/VEJA
Crônicas do Homem do Fogo,

Ter ou Não Ter, Eis a Gratidão

       O homem do fogo estava com a mente extenuante e cansada, pois enfrentava fase financeira delicada e discussões cada vez mais frequentes com a esposa resultando em um quadro inicial de depressão. Qualquer coisa era motivo para deixá-lo nervoso: a porta do guarda-roupa que estava solta, a gaveta do armário que não fechava direito, a goteira do chuveiro, a manutenção no carro… Tudo parecia contribuir para tirar sua paz.

       Terminada mais uma discussão fútil, sua esposa e ele saíram para trabalhar quase não se falando. Na fase turbulenta que vivia, seu serviço era uma das poucas coisas que o distraía. Chegando no quartel, assumiu o plantão e começou a conferir sua viatura. Não fumava, exceto quando estava nervoso, pois o relaxava. Acendeu um cigarro de forma meio desajeitava, ligou um rádio velho que ficava na sala de aula e sintonizou uma estação de rock clássico. Estava tocando “Stairway to Heaven” da banda Led Zeppelin. Era o que precisava para se reconectar consigo mesmo. Quando fazia isso o tempo parecia parar e sua mente viajava em cada acorde que ouvia. Abria gaveta por gaveta do Auto Bomba, mexendo cuidadosamente em todos os equipamentos. Os demais bombeiros já haviam terminado a conferência das outras viaturas e tomavam o café da manhã, mas ele permaneceu lá, sozinho, aproveitando a paz que a solidão momentânea lhe trazia. Observou o céu acinzentado e pensou: hoje vai cair uma chuva daquelas! E assim foi. Com a chegada da noite a chuva intensa acompanhada de ventos fortes assolava a cidade. Árvores caíam, muros desabavam e ruas eram alagadas. Era para ser a típica chuva de verão que vêm com toda a força, faz alguns estragos e repentinamente acaba, mas aquela se estendeu pela noite toda.

       Na periferia havia um bairro dividido por um pequeno córrego. Alguns minutos de tempestade intensa fizeram o volume da água rapidamente subir, transformando-o em um rio com forte correnteza, arrastando lixo e entulho para dentro das residências que o margeavam. Em uma viela mais baixa que as demais ruas, totalmente alagada, havia duas famílias presas dentro de suas casas, com a água quase ao nível dos fogões. Mulheres se amontoavam sobre as camas e sofás se esforçando para proteger suas crianças e alguns pertences do contato com a água. Uma delas estava com um bebê recém nascido, cuidadosamente envolvido em um cobertor. Na rua de trás, duas equipes de salvamento trabalhavam rápido para acessar a viela através do telhado de uma das casas.

      O homem do fogo e seu companheiro desceram por uma escada e entraram na primeira residência. Sapos, aranhas e outros animais lutavam para se manter na superfície da água. Bombeiros! Bombeiros! Alguém me ouve? – gritavam os dois homens do fogo; as vítimas, aliviadas, responderam: Graças a Deus eles chegaram! Aqui moço! Estamos no quarto!

       Foram retiradas da primeira casa duas mulheres, seis crianças e o bebê. Enquanto realizava o salvamento,  o homem do fogo imaginou como deveria ser difícil viver naquela condição: local sem saneamento básico, todos os móveis destruídos, ter que sair da própria casa na escuridão da noite com uma criança no colo e a roupa do corpo! Quando a chuva iria parar?  Quanto tempo levaria para limpar a lama? E todo o prejuízo causado? Ao carregar a última vítima, uma garotinha de sete anos de idade, tentou tranquilizá-la, mas ela parecia estar acostumada com o ocorrido. Provavelmente não era a primeira vez que perdia o conforto de sua casa para a enchente.

       Deixaram as primeiras vítimas em segurança e retornaram em busca das demais. Enquanto caminhava desviando-se de eletrodomésticos que flutuavam na viela, o homem do fogo lembrou-se de sua família: ficou aliviado, pois o pequeno apartamento que morava estava protegido, já que localizava-se em um bairro alto; sua esposa e filha provavelmente estariam dormindo ao som da chuva –  a mesma que acabara de destruir as casas e todos os pertences daquelas pessoas.

       Na segunda residência havia um casal com um garoto de aproximadamente dez anos de idade. O pai tentava salvar o que era possível, colocando coisas sobre móveis mais altos e a mãe segurava em suas mãos uma pequena mochila com roupas e uma sacola de supermercado com dois litros de leite. Era todo o patrimônio que restou. O homem do fogo colocou o garoto sobre os ombros e  atravessou a viela até a escada. Os olhos do pequeno brilhavam; ele fazia uma pergunta atrás da outra, querendo saber sobre o serviço dos bombeiros. Seu sonho era ser bombeiro para poder ajudar as pessoas – dizia ele. Depois de subir as vítimas até a rua, o homem do fogo fez questão de mostrar a viatura para seu novo amigo. Valia qualquer coisa para ver um sorriso no rostinho iluminado pelos flashes intermitentes da viatura. Parecia não haver chuva, danos e desgraça; a inocência da criança só absorvia a experiência de ter um caminhão de bombeiros de verdade na sua frente, podendo tocar em tudo. Provavelmente era muito raro passar viaturas por aquela rua. Se despediram com um toque de mãos e um abraço. Enquanto o pai o levava para a casa de um vizinho, o garoto acenava, até desaparecer na escuridão da rua.

       A chuva acalmou, as equipes de salvamento fizeram alguns comentários sobre o atendimento e retornaram para o quartel. Enquanto regressava, o homem do fogo se lembrou de como estava se sentindo na manhã daquele dia: a porta do guarda-roupa, a gaveta do armário, a goteira, o carro – tudo isso deixou de ter o significado de antes, pois sua consciência o fazia sentir-se ingrato. Na dia seguinte, saiu de plantão com outro sentimento percorrendo sua alma. Ao chegar em casa entrou devagar e observou à sua volta. Tudo seco, organizado e limpo. Acordou a esposa com um beijo carinhoso e dividiu um cappuccino quente enquanto brincava de boneca com sua filha. Como de costume, contou sobre sua ocorrência enquanto a esposa esfregava os olhos, esforçando-se para acordar e prestar atenção à cada detalhe que o marido falava. Após ouvir a emocionante história, ela também atinou para a vida que possuía: se sentiu feliz e próspera. Os problemas fúteis que haviam discutido na manhã anterior foram imediatamente dissolvidos pelo mágico e poderoso sentimento de gratidão.

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Ter ou Não Ter, Eis a Gratidão

Geison Matochi

Trabalhando com salvamento desde 2003, atua como instrutor de técnicas verticais e resgate em altura para diversas escolas e instituições. É fundador e editor do blog Salvamento Brasil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com