Resgate em Espaços Confinados: Entre e saia vivo!

Resgate em Espaços Confinados: Entre e saia vivo!

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Resgate em Espaços Confinados: Entre e saia vivo!

       Eis aí um dos serviços mais arriscados que por vezes acaba sendo necessário ser executado para inspeções, manutenções, limpeza, resgate etc. Em ambientes industriais existe uma série de exigências documentais e procedimentais para que a entrada em um espaço confinado seja autorizada. O treinamento de 16 horas para os trabalhadores autorizados e vigias e de 40 horas para o supervisor (portanto, equipe mínima de 3 pessoas) é obrigatório e válido por um ano. Após, é realizada uma reciclagem. A empresa precisa ter um cadastro atualizado de cada espaço confinado com seus riscos, formas de acesso, pontos de ancoragem, procedimentos de resgate, layout, etc, avaliados criteriosamente para que se crie uma condição segura. Enquanto isso não ocorrer, a entrada não deve ser autorizadaMas quando o assunto é resgate em espaços confinados a coisa muda bastante!

       Em um de nossos plantões fomos acionados para atendimento de uma vítima que havia caído no interior de um poço de aproximadamente 30 metros de profundidade, com água. Baseado em minha experiência em ocorrências desse tipo, fiquei aliviado por saber que continha água, pois geralmente nesses casos a queda é “amortecida” e a vítima apresenta ferimentos de menor gravidade se comparado a um poço seco. Três viaturas foram acionadas para o local – uma cidadezinha vizinha, uns quinze quilômetros de onde estávamos.

       Como ocorre com toda equipe de resgate emergencial, com a chegada da primeira viatura começa a análise de riscos: área isolada, energia elétrica da bomba do poço desligada, montagem de tripé e bloco de polias para acesso, corda de segurança, equipamento de proteção respiratória, iluminação, etc. Ao visualizar o interior do poço não era possível avistar a vítima, pois havia submergido, ou seja, era necessário mergulhar dentro do poço, portanto a proteção respiratória passou a ser o conjunto de mergulho autônomo (cilindro, colete equilibrador, máscara, roupa de neoprene, lastros e válvula). Independentemente da vítima estar visível ou não, nossa intenção era resgatá-la viva, portanto toda essa montagem de sistemas de acesso e segurança foi realizada dentro de um tempo mínimo possível, com fator de segurança aceitável.

       Testei meus equipamentos, mordi a válvula e dei um “ok” para o comandante da ocorrência autorizar minha entrada. Os bombeiros que estavam na função de vigias acionaram rapidamente os descensores e eu desci.

Espaços Confinados - Como Entrar e Sair Vivo - entrada em  poço

Geralmente, espaços confinados com essa característica possuem boca de visita estreita, o que exige maiores cuidados para a entrada

       Com aproximadamente vinte metros de desnível cheguei na água. Me soltei do bloco de polias e permaneci conectado apenas à corda de segurança; dei um sinal de “ok” para os vigias e iniciei o mergulho. Desci aproximadamente cinco metros e senti meus pés tocarem os pés da vítima. Agarrei-o com força e aproveitei as manilhas como apoio para subir.  O interior do poço com mais ou menos um metro de diâmetro ficou bem apertado para mim, a vítima e o cilindro, mas com um pouco de calma foi possível trabalhar. Como não havia a possibilidade de posicionar a vítima de forma adequada, ancorei uma fita tubular aos seus pés, conectei o bloco de polias a eles e dei sinal de “ok” para iniciarem a subida. Lá em cima uma equipe de Suporte Avançado do SAMU atestaria o óbito minutos depois.

       Saí do poço, fomos parabenizados pelo comandante pelo trabalho realizado e prosseguimos com nosso plantão sem mais novidades.

       Coincidentemente, nas semanas seguintes realizei o Curso de NR33 – Supervisores para Espaços Confinados em um grande centro de treinamento de uma das empresas que é referência mundial na fabricação de equipamentos para resgate, trabalhos em altura e espaços confinados. Foi muito proveitoso; esclareci dúvidas, aprendi regras valiosas para análise de riscos, utilizei diversos equipamentos de proteção respiratória e troquei informações com profissionais de vários locais do Brasil.

       O curso enriqueceu minha mente com muitas informações técnicas relacionadas aos riscos e formas de execução dessa atividade. Compreendi que muita coisa pode ser melhorada em ocorrências como essa, portando discutir o tema aqui no Blog Salvamento Brasil seria muito importante. Portanto, mãos à obra!

Espaços Confinados - Como Entrar e Sair Vivo - entrada em  poço

 

 

          RISCOS ATMOSFÉRICOS

       Em se tratando de resgate, tudo o que puder ser feito para agilizar o atendimento será bem vindo desde que mantenha um nível aceitável de segurança. Como nosso detector de gases estava indisponível naquele dia, utilizei equipamento de proteção respiratória e a iluminação foi feita com lanternas intrinsecamente seguras, posicionadas fora do EC. Aparentemente os riscos estavam controlados, mas poderia existir a presença de gases perigosos.

Detector de Gases Altair MSA para 4 gases

Detector multi-gás: acessório indispensável para se avaliar a atmosfera ANTES da entrada. Ele deve permanecer JUNTO ao trabalhador\resgatista que efetuará a atividade no interior do EC.

       Os gases mais comuns em locais como um poço são: Metano (CH4) e o Gás Sulfídrico (H2S). O gás Metano se forma a partir da fermentação de resíduos orgânicos devido à ação de bactérias, muito comum em pântanos e locais onde há água parada e restos desses materiais. Quando há o contato desse gás com a atmosfera ele se torna altamente inflamável. Devido a essa característica, os aterros sanitários possuem chaminés para evitar o acúmulo do gás e o risco de explosão. Ele também é asfixiante, pois sua alta concentração em um ambiente toma o lugar do ar respirável. Ele é pouco mais leve que o ar (densidade de 0,656 kg/m³, sendo o ar 1,292 kg/m³), geralmente ocupando o espaço entre o meio e a parte superior do poço.

       O gás Sulfídrico se forma a partir do processo de degradação de resíduos vegetais e animais, e possui um cheiro característico de ovo podre. É comum encontrá-lo nos mesmos locais do gás Metano. Por se tratar de um gás mais pesado que o ar (densidade de 1,363 kg/m³) geralmente fica depositado nas partes mais baixas dos espaços confinados. É um gás altamente tóxico. Para se ter uma ideia, se estivermos em um espaço confinado e seu volume total for dividido em um milhão de partes, e esse gás ocupar oito partes, ele terá atingido seu Limite de Tolerância (8 ppm) e poderá causar danos nos olhos, vias respiratórias e casos mais graves convulsões e morte.

       Outro ponto importante a ser avaliado é a questão dos Limites de Explosividade pois ambos podem ser inflamáveis. O Limite Inferior de Explosividade (LIE) indica a concentração mínima de um determinado gás capaz de produzir uma explosão; o Limite Superior de Explosividade (LSE) indica a concentração máxima – ou seja – a concentração compreendida entre o LIE e LSE é a chamada “mistura rica”, onde existe oxigênio e gás inflamável em concentrações ideais para entrar em combustão com qualquer faísca ou fonte de calor / energia. Isso inclui eletricidade estática. Os vídeos abaixo mostram claramente a ignição de gases inflamáveis a partir do simples atrito entre peças de roupa e assentos.

 

       Como havia bastante atrito entre todos os equipamentos, roupa de neoprene, cordas e minha movimentação, obviamente fiquei “carregado” com essa energia. Se houvesse uma concentração de CH4 ou H2S dentro das respectivas faixas de explosividade, poderia ocorrer uma explosão.

GESTÃO DE RISCOS

Espaços Confinados - Como Entrar e Sair Vivo - entrada em  poço

Equipe de serviços industriais preenchendo a Permissão de Entrada e Trabalho – documento obrigatório para todo serviço em espaços confinados. Deve ser preenchido e assinado antes da execução da entrada.

       Em ambientes industriais, com toda a exigência citada acima, a entrada só deve ser permitida quando existirem condições seguras de entrada e toda a documentação estiver preenchida e assinada por todos os envolvidos no trabalho. Para isso acontecer, a empresa deve dispor de detectores de gases, exaustores e ventiladores, equipamentos de proteção respiratória autônoma ou de ar mandado, lavagem e purga, bloqueio e etiquetagem de fontes de energia, inertização com nitrogênio, etc. Por se tratar de SERVIÇO, qualquer condição que não atenda aos requisitos mínimos da NR33, impede sua execução.

       Quando o assunto é RESGATE temos outra realidade. As equipes que farão o atendimento não possuem o mesmo tempo disponível para a realização de uma análise de riscos detalhada, muito menos todos os equipamentos necessários para uma entrada igual a que ocorreria em um ambiente industrial. Geralmente as viaturas que são despachadas para uma ocorrência desse tipo possuem equipamentos variados para atender emergências variadas; não é uma viatura especializada somente para resgate em espaços confinados, portanto o uso e adaptação segura de alguns equipamentos e ações imediatas que resolvam riscos diversos ao mesmo tempo sempre serão a melhor opção. Devido ao nível profundo de conhecimentos que o assunto exige e também da logística, seria desejável que existissem equipes especializadas para respostas a emergências que envolvam espaços confinados e altura (pelo fato de técnicas e equipamentos se fundirem nas duas áreas). De forma análoga, podemos citar as equipes anti-explosivos do GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais) da Polícia Militar do Estado de São Paulo: é um grupo que atende UNICAMENTE emergências com bombas. Eu já estive presente em vários atendimentos de explosões de caixas eletrônicos e observei esses notáveis profissionais trabalhando. Eles agem com procedimento e excelência, pois treinam somente isso e possuem equipamentos especializados somente para esses eventos. O resgate em espaços confinados e ambientes verticais, tendo em vista o risco potencial que possuem, merecem mais cautela e preparação técnica.

       A ventilação seria algo de extrema importância, pois eliminaria os gases tóxicos, asfixiantes e inflamáveis.

Ventilador / exaustor para espaços confinados

Ventilador / exaustor para espaços confinados

       Na ausência de um exaustor/ventilador, a melhor opção seria um conjunto autônomo de ar mandado, pois além de aumentar significativamente o tempo de ar respirável, no caso de alguma falha o socorrista poderia fazer uso do cilindro de fuga para escape emergencial.

Cilindros ar Mandado

Cilindros de ar Mandado

Equipamento autônomo de ar mandado

Equipamento autônomo de ar mandado: 1= cilindro de escape; 2= cilindro principal

       Infelizmente, os espaços confinados já fizeram muitas vítimas, tanto trabalhadores quanto socorristas. Para que os riscos presentes em toda emergência com espaços confinados sejam corretamente avaliados e isolados, TREINAMENTO, USO DE EQUIPAMENTOS ESPECÍFICOS E UMA EFICIENTE AVALIAÇÃO DE RISCOS são as únicas coisas que garantem a entrada, realização do resgate e saída de forma segura. Podemos citar como um equipamento específico o tripé. Em espaços confinados verticais seu uso facilita tanto a entrada do socorrista quanto a retirada da vítima. Para ter maiores informações sobre o uso do tripé e montagem do sistema de polias, acesse nosso artigo sobre Sistemas de Vantagem Mecânica clicando aqui. Caso o EC seja horizontal, não há a necessidade desse equipamento, porém é obrigatório ancorar uma corda de segurança ao trabalhador; ela servirá para localizá-lo e retirá-lo em caso de resgate.

       Recomendo à todos os profissionais que atendem esse tipo de emergência a realização do Curso de NR 33 para Supervisores, pois nas palavras de Albert Einstein:

Albert Einstein

“UMA MENTE QUE SE ABRE A UMA NOVA IDEIA JAMAIS VOLTARÁ AO SEU TAMANHO NORMAL”

Agradecimentos: Reginaldo Cunha – 3M Brasil e CAP CBMPR Eduardo Slomp Aguiar pelo compromisso e paixão em compartilhar valiosas informações, tornando nosso artigo mais confiável.

#FORÇAEHONRA

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Geison Matochi

Trabalhando com salvamento desde 2003, atua como instrutor de técnicas verticais e resgate em altura para diversas escolas e instituições. É fundador e editor do blog Salvamento Brasil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com