Resgate em altura | Sistemas Simples

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Resgate em altura - Salvamento Brasil
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Resgate em altura | Sistemas Simples

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       Resgate….. uma palavra simples que traz em seu significado as mais complicadas operações executadas por equipes profissionais ou as mais simples, executadas por pessoas com um nível mínimo de treinamento.

        PÁRA TUDO: PESSOAS COM UM NÍVEL MÍNIMO DE TREINAMENTO PODEM FAZER UM RESGATE EM ALTURA?

        Sim, elas podem. Como dizem os especialistas: o melhor resgate é aquele que não precisa ser feito, e isso é possível mediante um bom planejamento. 

       Partindo desse princípio muito prudente, que é planejar muito bem cada intervenção vertical, seja ela um treinamento ou um trabalho em altura, corte de árvore, etc, fica claro que devemos também pensar em como proceder no caso de acidentes, com possíveis manobras de resgate – isso pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora.

       Existem algumas normas e padrões que definem várias cargas horárias para que profissionais possam executar essas atividades. Essas, envolvem manobras de médio e alto nível técnico, com seus riscos, devidamente controlados e analisados, além de um treino constante. Para tanto, um trabalho bem planejado deve considerar vários fatores, entre eles o de evitar que aconteça um novo acidente, optando pela técnica de resgate mais fácil, mais rápida e mais eficiente. Sempre que um profissional se pendurar numa corda para efetuar um trabalho, todos os riscos típicos de qualquer atividade que envolva verticalidade estarão presentes, ainda que de forma controlada.

       Mas, como fazer isso?

       Resposta 1: PLANEJAMENTO (Através de uma Análise de Riscos)

       Resposta 2: ANCORAGENS DEBREÁVEIS OU UM KIT DE RESGATE PRÉ MONTADO.

       Uma das opções acima se encaixa, digamos, em 80% dos casos – é claro que estamos falando em RESGATE SIMPLES, e não RESGATE COMPLEXO, que necessita de equipe maior, uso de maca, alguns casos com atendimento pré hospitalar e suporte avançado, locais de difícil acesso, etc. Para nosso estudo de hoje serão basicamente casos de trabalhos em altura, por exemplo: queda com vítima suspensa em andaimes ou estruturas metálicas, telhados, acidentes com trabalhadores em fachadas de prédios, etc, onde qualquer pessoa com um treinamento mínimo de oito horas (padrão para qualificação em Trabalhos em Altura no Brasil, conforme a Norma Regulamentadora 35) consiga executar, se submetida e aprovada à avaliação teórica e prática e ainda PLANEJAR ESSE TRABALHO.

       A base de todo sistema de resgate simples em altura com vítima suspensa (seja na própria corda, em trava quedas ou talabarte duplo) é: aliviar o peso da vítima, soltá-la de sua ancoragem e depois descer de forma controlada até o chão (para kit de resgate pré-montado). Agora, se você for uma pessoa mais prevenida, já vai montar um Sistema de Ancoragem Debreável, onde o sistema de resgate já estará “embutido”, bastando apenas acionar um freio e descer a vítima – dessa forma você ganha mais tempo, torna o resgate mais simples e evita que o socorrista se exponha aos riscos da verticalidade. Existem várias formas de conseguirmos executar essas técnicas e inúmeras combinações de equipamentos. Vamos mostrar algumas formas simples e seguras. Mas lembre-se que:

       TUDO COMEÇA NO PLANEJAMENTO E ANÁLISE DE RISCOS!

       ATENÇÃO!

       O sistema de resgate escolhido deverá estar disponível e funcionando antes do trabalho em altura começar. Acidentes podem acontecer com todos, portanto não pense que você é o “fodão” cheio de experiência!!! Seja humilde e se prepare para os riscos aos quais você estará exposto!

RESGATE EM ALTURA | KIT PRÉ-MONTADO

       Trata-se de um kit, acondicionado em uma pequena bolsa de fácil transporte e manuseio, que deverá ser facilmente acessado e operado por alguém treinado, quando ocorrer queda com vítima suspensa. Particularmente chamo essa técnica de Sistema de Resgate Passivo, já que depende da instalação do kit na vítima. Esse kit pode ser montado com a combinação de vários equipamentos, desde que obedeçam à seguinte lista:

1 Freio

Descensores automáticos - I´D e Grigri 2 da Petzl e D4 da ISC

Descensores automáticos – I´D e Grigri 2 da Petzl e D4 da ISC

       Deverão ser preferencialmente de bloqueio automático, tipo I´D , Grigri, D4…; caso você prefira usar o bom e velho freio oito, recomendo usar junto um cordelete com um nó blocante – isso evitará que a vítima caia de forma descontrolada caso as mãos do socorrista soltem da corda. No freio automático, o cordelete não é necessário.

 

2 Polias Duplas

Polia Dupla base chata

Polia Dupla base chata

       Preferencialmente de base chata para facilitar o uso com o cordelete que funcionará como captura de progresso. Quanto menor e mais leve forem as polias, melhor será, para que o kit tenha dimensões pequenas, facilitando o uso e transporte.

 

1 Cordelete ou 1 Trava Quedas ou 1 Bloqueador de Cordas tipo ropegrab ou 1 Rescucender

Bloqueadores para captura de progresso

Bloqueadores para captura de progresso

       Funcionarão como captura de progresso, ou seja, ao tracionarmos a vítima para liberá-la de sua ancoragem, a captura de progresso evitará que esta volte para sua posição inicial, evitando a queda. Qualquer um dos equipamentos acima podem ser usados, mas particularmente um trava quedas ou blocante de corda facilita muitíssimo a operação do sistema, caso seja necessário liberar a captura de progresso para ajustar o tamanho do bloco de polias; o cordelete terá um pouco mais de dificuldade, mas funcionará tão bem quanto. O único cuidado importante é: ajustar muito bem seu tamanho, pois caso haja muita distância entre o nó blocante e a alça do cordelete, poderão ocorrer solavancos e um pequeno fator de queda caso as mãos do socorrista soltem inesperadamente da corda.

 

Corda de 11mm (tamanho vai depender do vão livre do resgate)

Corda certificada de 11mm

Corda certificada de 11mm

       Qual seria um comprimento de corda ideal para se montar um kit desse? Depende. Qual o vão livre que estará entre a vítima e o chão? A quantidade de corda escolhida cabe em uma bolsa de fácil transporte e manuseio? Essas e outras questões deverão ser feitas no momento da análise de riscos, ou seja, dependerá novamente de um bom planejamento. Por exemplo, se em uma indústria o maior vão livre é de 40 metros (silo, caixa de água…), o kit deverá atender pelo menos esses 40 metros, pois a partir daí, os vão menores também serão atendidos. Cordas certificadas geralmente são vendidas em múltiplos de 50 metros, portanto recomendo montar um kit desse com uma corda nessa medida – 50 metros x 11mm – isso dará um vão livre útil de 45 metros e fica bem acondicionada em uma bolsa pequena.

 

1 Fita  de Ancoragem

Fita tipo sling com proteção

Fita tipo sling com proteção

       Esse kit deverá ser ancorado um pouco acima da vítima e nem sempre é possível utilizarmos diretamente um mosquetão. Aí a fita envolve o ponto de ancoragem e teremos isso resolvido. Recomendamos uma fita com carga de ruptura mínima de 22kN, já passada por dentro de uma proteção para cantos-vivos (pode ser um pedaço de mangueira de incêndio velha).

 

4 Mosquetões

Mosquetões de aço automáticos

Mosquetões de aço automáticos

       Recomendo mosquetões em aço com trava automática, devido à sua facilidade e segurança de uso. Mosquetões de rosca podem acabar abrindo sem percebermos, durante as movimentações do socorrista no momento do resgate. 

 

Mãos à obra!

 

Passo a passo:

       1- Utilizando dois mosquetões e duas polias, monte um sistema de vantagem mecânica de 4:1 com desvio de direção – acesse a postagem sobre esse tema clicando AQUI para facilitar seu entendimento; deixe um mosquetão em baixo e outro em cima; prenda o nó oito duplo junto com o mosquetão de cima;
Kit de resgate em altura pré montado | Passo 1

Kit de resgate em altura pré montado | Passo 1

       2- Monte a Captura de Progresso – prenda o trava quedas, bloqueador de corda ou cordelete na primeira corda que sai da carga;

Montagem do kit de resgate em altura | passo 2

Montagem do kit de resgate em altura | passo 2

 

3 – Prenda o freio na polia de baixo e instale o outro chicote da corda (que está dentro da bolsa) nele; caso esteja usando o I´D, como na ilustração, não se esqueça de passar a corda novamente no mosquetão (re-renvio). Caso tenha dúvidas em como usar o I´D, clique AQUI e veja mais informações sobre ele.

montagem do kit de resgate em altura | passo 3

montagem do kit de resgate em altura | passo 3

       Pronto! Kit de resgate em altura pré-montado em condições! Veja agora como utilizar:

Usando o kit de resgate em altura pré montado

Usando o kit de resgate em altura pré montado

       Pontos positivos:

       – Aproveita melhor o bloco de polias, pois este apenas suspende a vítima e depois a desce em corda simples; para descer em um sistema estendido, 50 metros de corda daria um vão livre de apenas 12 metros (50 metros de corda dividido por 4 que é a vantagem mecânica); com essa configuração 50 metros de corda permite um vão livre útil de 45 metros;

       – O kit todo cabe em uma bolsa pequena que poderá ser levada junto com o socorrista;

       Pontos negativos:

     – Depende de alguém bem treinado para montar e desmontar o kit, pois caso ocorra algum problema, como por exemplo as polias torcerem e as cordas travarem, o kit deverá ser desmontado e montado novamente.

       – Depende de um socorrista para acessar a vítima no ponto onde ela está, se expondo aos riscos que qualquer intervenção em altura oferece.

       Segue um vídeo para melhor compreensão:

RESGATE EM ALTURA | ANCORAGEM DEBREÁVEL

       A palavra “debrear” significa liberar, desengatar. E é exatamente isso que irá ocorrer nesse caso: ao invés de ancorarmos a corda diretamente em um ponto de ancoragem, prenderemos um freio à ancoragem e a corda a este. PRONTO! Chamo essa técnica de Sistema de Resgate Ativo, já que o simples fato de alguém estar pendurado nessa corda ou nesse sistema de ancoragem, já faz com que possa ser descido até o chão no caso de queda com vítima suspensa. Simples, não!

       Nesse caso, basta a pessoa (não precisa ser socorrista) saber acionar o freio responsável pelo sistema de ancoragem e a vítima pendurada descerá até o chão. Isso faz com que o resgate seja mais rápido, simples e seguro, já que ninguém precisará acessar a vítima, e quanto menos pessoas estiverem penduradas, melhor! Você vai precisar de:

1 freio

Descensores automáticos

Descensores automáticos

       Como sempre, preferencialmente de bloqueio automático. Caso use um freio oito, o cordelete com um nó blocante é obrigatório.

2 mosquetões

2 mosquetões aço automáticos

2 mosquetões aço automáticos

       A mesma ladainha de sempre……… automáticos, em aço…

Corda

Corda certificada de 11mm

Corda certificada de 11mm

       Deverá ter um comprimento bem superior à distância da vítima ao chão (pelo menos o dobro), senão o resgate não será possível! ATENÇÃO! FAÇA SEMPRE OS NÓS DE CONTENÇÃO!

       Que p#$$@ é essa de nó de contenção? eu explico:

       Caso a corda chegue ao fim antes da vítima chegar no chão, o chicote passará por dentro do freio e a vítima irá cair! Transformamos o resgate em um assassinato! Portanto, NUNCA ESQUEÇA DE REALIZAR OS NÓS DE CONTENÇÃO! Faça dois nós oito duplo – um no chicote final da corda e outro dois metros antes. Assim você será avisado quando a corda chegar ao final e esses nós farão a corda ficar travada no freio, evitando acidentes.

Vamos ver como funciona:

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável

       Caso houver mais de um trabalhador na mesma linha de vida, esta terá que ser fracionada, senão quando um trabalhador cair os outros serão puxados:

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável

       É possível fazer também em linhas de vida verticais, em andaimes ou escadas, por exemplo:

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável em andaimes ou escadas

Sistemas de resgate em altura| ancoragem debreável em andaimes ou escadas

       Nesse caso, não esqueça de ancorar a corda ao pé da escada para que não suba junto com o trava quedas.

       Pontos positivos:

       – Pouco equipamento exigido;

       – Pouco treinamento necessário para realizar o resgate.


       Pontos negativos:

       – as cordas deverão estar totalmente livres de enroscos ou cantos-vivos, o que às vezes pode ficar bem difícil de fazer, portanto muita atenção!

       Cada situação é uma e cada caso é um caso. Qual desses sistemas é o mais útil dependerá da análise do profissional, do local, da disponibilidade de equipamentos e recursos, nível de treinamento do socorrista, etc. Um conselho? treine sempre!

 

 

 

#forçaehonra 

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com