Qual seria sua escolha?

Qual seria sua escolha?

Foto: Alberto Takaoka
Blog, Crônicas do Homem do Fogo,

Qual seria sua escolha?

       Há alguns dias atrás, durante o horário de almoço no quartel, surgiu um assunto delicado que fez com que a opinião dos bombeiros presentes ficasse bastante dividida. O caso foi o seguinte: um carro caiu de uma ponte e ficou submerso em um rio. Com a chegada da primeira equipe de resgate, um dos bombeiros desceu rapidamente da viatura e sem ter tempo de tirar a farda e se equipar com equipamentos de proteção individual correspondentes para aquela ocorrência (colete salva-vidas, capacete, roupa de neoprene, etc), pulou no rio, e nadando com dificuldade (pois estava de botas), conseguiu alcançar as vítimas, entre elas uma mulher grávida. Quando trouxe elas até a margem, estava tão exausto que mal conseguia se manter flutuando. Ele admitiu que se tivesse que retornar para alcançar outra vítima, ele teria se afogado; também admitiu que os segundos necessários para se equipar custariam as duas vidas, pois a correnteza rapidamente levaria elas para longe – ou seja, ele entraria na água todo equipado e voltaria de mãos vazias. Esse assunto causou uma boa e saudável discussão entre os bombeiros presentes. Alguns pulariam de farda mesmo pois era a única chance de resgatar alguém com vida, outros acharam isso um absurdo, pois a regra  básica é clara: PRIMEIRO A SUA SEGURANÇA, DEPOIS A DA EQUIPE E POR ÚLTIMO A DA VÍTIMA. Isso parece estranho e um tanto “individualista” para quem não trabalha com serviços de resgate e salvamento, mas é a pura verdade: como pode um bombeiro desprotegido oferecer ajuda a sua vítima? existem casos no mundo todo de socorristas que se transformaram em vítimas, ou seja, uma equipe com cinco profissionais para resgatar uma vítima, passa a ter quatro profissionais para resgatar duas vítimas. Um acontecimento desse desequilibra todos os envolvidos e uma situação de pânico geral acaba se instalando. Mas então qual seria a escolha correta?

       Aconteceu algo semelhante comigo: um cão que havia caído no mesmo rio. Ele estava sendo tragado pela correnteza e já havia afundado algumas vezes. Corri pela calçada, tirei as botas e entrei na água. Consegui alcançá-lo, trouxe-o para a margem e aparentemente tudo estava resolvido, com exceção do meu pé: havia um corte profundo no calcanhar, ocasionado por algum objeto cortante que acabei pisando durante o salvamento. Resultado: uma semana baixado, vacinas, oito pontos de sutura e alguns antibióticos. Tive sorte, pois poderia ter sido contaminado por doenças graves que afetariam minha saúde de forma crônica, permanentemente.

       Tanto o colega quanto eu, na ocasião onde esses fatos ocorreram, éramos recrutas, solteiros, “acelerados” e doidos. Se não fosse os antigos nos segurarem, provavelmente não estaríamos mais vivos. Mal sabíamos que graças aos “mijões cansados” nossa integridade física era preservada e nossa força utilizada de forma equilibrada. Hoje dou razão a cada orientação que um dia contestei.

       Depois de todas as opiniões ouvidas, chegamos a uma conclusão que foi aceita por todos: o que diferencia um bombeiro de um cidadão comum? resposta: treinamentos, equipamentos, técnicas e táticas que fazem os riscos serem avaliados e gerenciados para que as missões sejam concretizadas sem efeitos colaterais ou sequelas, nem para o bombeiro, nem para a vítima. Hoje, mais maduros e experientes, pensamos em nossos filhos, esposas, famílias e as consequências que as escolhas erradas poderiam trazer para o resto de nossas vidas. Concluímos que qualquer bombeiro pularia de farda, mas não queremos ser qualquer bombeiro; queremos ser o bombeiro técnico, seguro de seus atos e consciente dos riscos, equipado corretamente, seguindo os procedimentos padrão. É somente dessa forma que teremos a autoridade e poder para entrar nos locais inóspitos e arriscados, recolher nossas vítimas e sair, terminando nosso “bom combate” de trinta anos com glória, orgulho e saúde, como os veteranos fizeram, nos servindo de bom exemplo.

Foto: Alberto Takaoka

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Geison Matochi

Trabalhando com salvamento desde 2003, atua como instrutor de técnicas verticais e resgate em altura para diversas escolas e instituições. É fundador e editor do blog Salvamento Brasil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com