O Irmão Mais Velho

O Irmão Mais Velho

Bruno Henrique Colli
Blog, Crônicas do Homem do Fogo,

O Irmão Mais Velho

       A vida é um grande paradoxo: ela traz felicidade, alegrias, conquistas e experiências, mas também é pré-requisito obrigatório para a morte. Essa é uma das certezas absolutas do ser humano – a metamorfose que um dia ocorrerá, fazendo com que a matéria volte para a terra e a alma flutue na eternidade. Infelizmente, ainda temos dificuldade para compreender quando isso ocorre com pessoas novas e cheias de disposição para a vida, de forma abrupta e inesperada.

       No Posto de Bombeiros do Santa Rosália, em um 3 de março ocioso, transcorria a sexta-feira corriqueira com as ocorrências de um dia comum: queda de moto, mal súbito, fogo em mato e outras. Lá estava ele na telegrafia, reclamando dos pernilongos e do incômodo que era usar o colete balístico, naquele calor infernal. Entre as mensagens chiadas do rádio tagarela ouvia-se no computador uma playlist de músicas escolhidas a dedo: Ramones, Led Zeppelin, The Doors, Iron Maiden, Camisa de Vênus, Plebe Rude, entre outros; as canções pareciam trazer paz e tranquilidade, dando ao local um ar mais cômodo e inspirador – pelos menos para ele, o Cabo Colli.

       Estacionei minha viatura em um canto com sombra e fui até a telegrafia matar o tempo. Nos cumprimentamos com uns tapas nas costas e como de costume, acompanhei ele para um café e um cigarro no estacionamento. Era um momento muito importante para nossa profissão: quando um “antigão” conta para um recruta suas histórias loucas, as coisas certas e erradas que fez durante as muitas ocorrências atendidas durante sua carreira, sempre acompanhadas de risadas. Nas entrelinhas haviam valiosos conhecimentos, que poderiam ser aproveitados em ocorrências de salvamento futuramente. E sempre eram. Um cara como ele, prestes a se aposentar, tinha muita pérola para passar adiante, pois era um dos mergulhadores de maior respeito do Grupamento. Com ele era possível aprender coisas que os livros e apostilas não mencionam.

       E lá vem mais um paradoxo: um coração que suportou quase trinta anos de serviços de alto risco em incêndios, corte de árvores, mergulhos e salvamentos, repentinamente resolve infartar. Os mesmos Homens do Fogo que estiveram com ele em ocorrências, naquela manhã de 6 de março estavam ajoelhados ao seu lado, realizando as massagens cardíacas no intuito de trazê-lo de volta. Os choques do desfibrilador, o médico, as drogas e todos os procedimentos possíveis não tiveram eficiência alguma. Não teve jeito, seu lugar não era mais aqui.

       No dia seguinte o Corpo de Bombeiros teria um membro a menos, deixando um gosto amargo em nosso plantão. Familiares, amigos e bombeiros se espremiam durante o velório. Todos fizeram questão de homenageá-lo com os significados e valores que associavam a ele. A farda operacional, a bandeira de operações de mergulho e uma camiseta do Iron Maiden trariam para seu local de descanso eterno o ambiente “cômodo e inspirador”, tal como ele fazia quando estava na telegrafia. Com a passagem do féretro formado pelas viaturas, a correria e alvoroço típicos do centro de uma metrópole como Sorocaba eram dissipados. A cidade parecia silenciar-se, agradecendo os bons serviços prestados por aquele bombeiro. Os sons das sirenes ecoavam por entre os prédios atiçando olhares curiosos. Não haviam dúvidas: era uma pessoa com muitos amigos.

       Os Homens do Fogo ofereceram o que sentem ser a mais alta demonstração de amor e respeito por um irmão de farda que partiu: como última despedida, em uma só voz, proferiram a Canção do Corpo de Bombeiros.

       Em nossas lembranças sempre haverá um Colli vivo, “regaço” e divertido. Para uns um grande filho, pai e marido; para nós, um professor e querido irmão mais velho.

Em memória de Bruno Henrique Colli

* 07/01/1971      †06/03/2017

facebook

O Irmão Mais Velho

Geison Matochi

Trabalhando com salvamento desde 2003, atua como instrutor de técnicas verticais e resgate em altura para diversas escolas e instituições. É fundador e editor do blog Salvamento Brasil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com

Comentários (7)

  1. Bruno Ferraz
    6 de abril de 2017 at 17:10

    Texto emocionante!! Simplesmente Sensacional!!! Parabéns Matochi!! Excelente homenagem!!!

  2. Hilquias lira
    6 de abril de 2017 at 17:58

    Parabens pelo texto emocionante.

  3. Odair
    7 de abril de 2017 at 16:14

    Fantástico, ler esse texto me fez voltar um pouco no tempo e lembrar de alguns momentos igual ao que você descreveu. Saudades sempre.

  4. Roger Pascoto
    7 de abril de 2017 at 16:14

    Parabéns Matochi pela homenagem, o COLLI vai deixar saudades.

  5. Andreoli
    9 de abril de 2017 at 16:35

    Minhas congratulações à família e parabéns ao Matochi que soube expor em nome de todos os companheiros o laço de uma grande amizade que nos deixou.

  6. PAULO
    29 de abril de 2017 at 18:24

    Como sempre matochi uma aula de amizade dedicação e companheirismo o destaca essa homenagem que o fez ao COLLI assim posso dizer pois o conheci convivi e o admirei somente soube agora mas ele mora em meu coração abraço e saudades desse magnifico e amigo irmão COLLI, nos deixou para mergulhar em outros mares abraço matochi e exemplo de vida e de significado da palavra corpo de bombeiros.

  7. Silvane
    6 de outubro de 2017 at 11:40

    Bom dia. Que lindo, triste e emocionante o teu texto, assim como a vida, cheia de altos e baixos, todinha recheada de todos os tipos de emoções, de todos os tipos de sentimentos.

Deixe um Comentário