Nós Básicos de Salvamento em Altura – parte I

Nós Básicos de Salvamento em Altura – parte I

Nós Básicos de Salvamento em Altura
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Nós Básicos de Salvamento em Altura – parte I

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Hoje vamos falar sobre alguns nós básicos de salvamento em altura presentes na maioria das atividades que envolvem verticalidade. Vale lembrar que as nomenclaturas e termos podem variar conforme cada área de especialidade (escotismo, marinha, espeleologia, resgate, trabalhos, equipes de salvamento, etc.), mas a base é a mesma: como confeccionar corretamente cada nó e saber em qual situação aplicá-lo.

 

Algumas considerações importantes:

– Existem uma quantidade infinita de nós, sendo a maioria utilizada para fins auxiliares ou decorativos; os que podem ser empregados operacionalmente, inclusive no salvamento em altura devem possuir as seguintes características:

  • padronização (a aparência final deve ser a mesma, independente da forma como foi confeccionado);
  •  simetria (as voltas devem possuir aparência padrão, sem “encavalarem”);
  • o percentual de eficiência deve ser conhecido – Todo nó causa perda de resistência, uns mais, outros menos, portanto é importante conhecermos essa porcentagem de eficiência, optando, logicamente pelos que possuírem menos perda (nós que podem ser utilizados em sistemas de segurança foram testados em laboratórios e seu comportamento quando submetido a cargas elevadas foi estudado e analisado por especialistas);
  • ser de fácil confecção e ajuste (deve ser fácil confeccioná-lo, ajustá-lo e quando necessário, desfazê-lo);
  • todo nó deve ter sobra de chicote mínima de 15cm (equivalente a 4 dedos), pois todo nó quando submetido a cargas elevadas se ajusta, e, caso a sobra de chicote esteja muito pequena, esta poderá retornar resultando na falha do nó.

– Os nós podem ser realizados de forma diferente de pessoa pra pessoa, porém quando terminados devem estar idênticos entre si, ou seja, se duas pessoas fazem um mesmo nó, quando acabados deverão estar iguais, por questões de segurança, conferência e padronização; Quanto mais olhos conferirem o sistema, menor será a chance de ocorrer algum erro;

– Todos os nós causam uma perda de resistência na corda, alguns mais outros menos, mais a maioria está em torno de 35%. Portanto saber o nó que está usando e sua perda de resistência  (ainda que estimada) é de suma importância;

– Todo nó deve ter uma sobra de chicote mínima de 15cm ou 4 dedos, pois todo nó quando é tensionado se ajusta, de forma que se o chicote estiver muito curto o nó pode se desfazer causando sérias injúrias;

– Geralmente nós com menos voltas (ex: Azelha) tendem a causar uma perda de resistência maior que nós que possuem mais voltas (ex: Oito Duplo) – prefira sempre estes;

– Nós não devem ficar em contato direto com vértices e arestas (ex: cordelete fechado em anel com pescador duplo pegando no mosquetão, nó de fita em contato direto com canto vivo), nesse caso lateralize o nó para que o mesmo não sofra atrito desnecessariamente;

– Evite deixar as cordas guardadas com nós tensionados, pois pode ocorrer desgaste prematuro no ponto onde o nó é realizado, além do “efeito memória” (corda fica permanentemente com o formato do nó, mesmo após este ser desfeito);

– Treine sempre, pois é muito comum esquecermos nós não praticados regularmente.

 

Algumas nomenclaturas são comuns nas atividades verticais, tais como:

Partes de uma corda

Partes de uma corda

  • Laseira: folga na corda, comumente chamada de “barriga”;
  • Chicote: Extremidade da corda onde é realizado o nó ou ancoragem;
  • Vivo: Segmento da corda que está sob tensão, ou seja, está sendo manuseado, ou ainda o lado oposto do chicote;
  • Safar: O mesmo que “soltar”;
  • Socar: Tensionar ou apertar mais um nó;
  • Sacar ou Solecar: Afrouxar o nó;
  • Tesar: Tencionar;
  • Permear: Dobrar ao meio;
  • Coçar: Quando a corda entra em atrito com cantos-vivos;
  • Acondicionar: Armazenar corda enrolada de forma padrão ou em bolsas;
  • Morder: pressionar, enroscar ou manter a corda sob pressão;
  • Coca ou macaco: Torções indesejáveis na corda, como as que ocorrem quando são realizadas várias descidas com o freio oito;
  • Falcaça: Acabamento que se faz nos chicotes da corda, para que não desfie;
  • Encavalar: Realizar um nó de forma incorreta, onde as voltas que deveriam ficar simétricas ficam sobrepostas;
  • Arrematar: Dar o acabamento em um nó; realizar um nó de segurança após um nó principal.

 

 

Vamos ao nosso primeiro nó:

 

Nó de Azelha

Nó de Azelha


Nó utilizado de forma auxiliar para ancorar equipamentos, cargas leves ou ainda isolar um ponto da corda considerado danificado (esse ponto fica na alça, de forma que não sofra tensão). Geralmente não é utilizado como nó de ancoragem pois sua soltura pode ser extremamente difícil quando submetido a cargas pesadas, além do grande percentual de perda de resistência. Eficiência estimada de 50%.

 

 

Nó Belonesi

Nó Belonesi

Funciona como blocante da mesma forma que o Nó Prussik, porém aplica-se a cordas de mesma bitola, ou seja,  a corda que receberá o nó possui a mesma bitola da corda utilizada para fazer o nó. É também utilizado em sistemas de encordamento de maca (para confeccionar os compassos / ancoragem aranha), ascensão, substituindo bloqueadores mecânicos (em último caso, pois o esforço nas manobras será bem maior se comparado com equipamentos mecânicos) etc. Deverão ser realizadas três voltas acima e três abaixo, arrematando o chicote com um Nó Simples para segurança, evitando que o Belonesi se desfaça devido a uma falta de ajuste. Eficiência estimada de 70%.

ATENÇÃO! Sempre faça o ajuste antes de utilizá-lo, pois um Belonesi solecado poderá falhar. Confira se o sentido de travamento está correto, pois seu bloqueio é unidirecional.

 

 

 

Nó Borboleta

Nó Borboleta

Sempre que a corda sofrer tensão em sentidos opostos, ou numa necessidade de se criar uma alça no meio dela, ou ainda isolar um ponto da corda que estiver danificado, o Nó Borboleta será a melhor opção, pois diferentemente do Nó Oito Duplo – que se for tracionado em sentidos opostos encavala – o Nó Borboleta permanece simétrico. É muito utilizado na montagem de fracionamentos de linhas de vida temporárias com corda, ancoragens de vítima e socorrista em descidas de maca, etc. Eficiência 75% (alça) e 57% (quando as cordas são tracionadas em sentido contrário).

 

 

Nó Direito

Nó Direito

Utilizado para emenda de cordas de bitolas iguais. Deve-se tomar cuidado para não formar o Nó Torto, pois este quando é tencionado corre e se solta. É comum ele solecar quando a corda balança ou sofre movimentação estando sem carga, motivo pelo qual torna-se obrigatório a realização de um nó de segurança para seu arremate (geralmente utilizamos o Pescador Duplo ou dois Cotes), que o nó direito esteja ajustado e os nós de segurança fiquem sem tensão.

 

Nó de Escota Simples e dupla

Nó de Escota Simples e Dupla

Nós utilizados para emenda de cordas de bitolas diferentes, sendo que a corda maior faz a alça e a menor faz a costura. Sempre faça o Escota Duplo, pois seu ajuste é melhor e o risco de correr devido a cargas pesadas é bem menor, se comparado ao Escota Simples. Não é recomendado realizar emenda de cordas utilizadas em operações de resgate e salvamento com esses nós, pois no caso de um ajuste incorreto ou até a própria movimentação cíclica (efeito de “chacoalhar” a corda), eles facilmente se soltam. Essa emenda deve ocorrer para tração de cargas e atividades gerais, exceto os casos acima.

 

 

Nó Lais de Guia

Nó Lais de Guia

Nó de fácil confecção que forma uma alça fixa, ou seja, mesmo submetida à tensão essa não corre, por isso é muito comum seu uso na realização de cabrestos improvisados (não enforca o animal), içamento de equipamentos, etc. O chicote final poderá ficar para dentro ou para fora – não vejo diferença nisso, mas enfim, alguns dizem “Lais de Guia para Mão Esquerda” (quando o chicote final fica para dentro) ou “Lais de Guia para Mão Direita” (quando o chicote fica para fora) – na minha opinião as duas formas funcionam igualmente (para uso em cargas leves), mas um cara que foi uma de minhas referências em verticalidade, Davi Marski, publicou um artigo e nele fica claro que a finalização com o chicote para fora torna o Lais de Guia um pouco mais seguro, já que alguns o utilizavam para encordamento em escalada (artigo disponível em http://www.marski.org/artigos/121-artigos-tecnicos/494-no-lais-de-guia ).  Não é recomendado seu uso em sistemas de ancoragem, apenas em cargas e animais, pois se não estiver bem ajustado ou arrematado com outro nó pode correr. Seu uso em atividades de escalada merece alguns cuidados que serão abordados no artigo do Davi Marski. Vale a pena ver! Eficiência de 67%.

 

 

Nó Lais de Guia de Correr

Nó Lais de Guia de Correr

Confeccionado igualmente como o Lais de Guia, porém a intenção agora é que o vivo da corda passe por dentro do seio, de forma que este corra até a ancoragem quando a corda for tracionada. Essa aplicação é geralmente utilizada durante corte de árvores, quando se deseja ancorar um galho a partir do solo, sem ter que subir lá em cima 🙂 Segue as mesmas regras do Lais de Guia.

 

 

Nó Oito Duplo

Nó Oito Duplo

Esse é o nó mais comum e mais utilizado em cavernas, resgate urbano, acesso por cordas, salvamento em altura, montanha, escalada e etc. O Oito Duplo é geralmente utilizado em ancoragens, encordamento de escaladores, macas, ou seja, sempre que haja a necessidade de ancorarmos a corda em alguém ou algum ponto de ancoragem. Possui excelente eficiência (77%), além de ser de fácil confecção e ajuste. A partir da mesma técnica do Oito Duplo, podemos confeccionar mais dois nós: o Nove e o Orelha de Coelho (também conhecido como Mickey).

 

 

Nó Orelha de Coelho

Nó Orelha de Coelho

Também conhecido como Mickey ou Oito Duplo com Alças Duplas, é um nó muito utilizado em sistemas de ancoragem de Acesso por Cordas. Ele nasce a partir do Oito Duplo, porém forma duas alças que podem ter tamanhos iguais ou ajustáveis. Pode ser utilizado na montagem de uma ancoragem Equalizada em “V”, entre outras. A ideia aqui é que cada alça esteja ancorada em um ponto diferente, de forma que ocorra a divisão da carga ou que esta seja transferida automaticamente para o outro ponto de ancoragem, caso o primeiro falhe. Eficiência de 69%.

 

 

Nó Pescador Simples e Duplo

Nó Pescador Simples e Duplo

É um nó de emenda destinado a cordas de bitolas iguais. Da mesma forma como explicado no Nó de Escota, prefira sempre o Duplo, pois é mais seguro, possui resistência maior e um ajuste melhor. Pense bem antes de utilizar esse nó, pois morde tanto, que desfazê-lo é tão difícil que você vai preferir cortar a corda. No caso de uma emenda ocasional, é preferível utilizar o Nó Direito, ou mesmo o Pescador Duplo, porém fazendo uso de um “calço de alívio” no meio desse nó, facilitando sua soltura depois. Esse “calço” pode ser um cordelete dobrado, um mosquetão ou até mesmo um pedaço pequeno de madeira ou galho de árvore – a ideia é retirar esse calço, deixando o nó frouxo quando se deseja desfazê-lo. Eficiência de 68%.

 

 

Nó Prussik

Nó Prussik

Mais um nó blocante para cordas de bitolas diferentes, só que esse é o dono da matéria, quero dizer, quando o assunto é nó blocante ele é o mais utilizado, assim como o Oito Duplo é em sistemas de ancoragem. Realizado através de cordeletes, ele supre nossa necessidade no caso da falta de equipamentos mecânicos que têm como função principal realizar o bloqueio da corda. Podemos realizar equalização de macas, confeccionar auto-seguros reguláveis, pedaleiras reguláveis, ascensão, captura de progresso em blocos de polia (já mencionado no post “Sistemas de Vantagem Mecânica”), entre outros. Um cara esperto jamais se pendura numa corda sem pelo menos dois cordeletes presos a sua cadeirinha – isso pode significar sobrevivência em algumas ocasiões, acredite. Com relação a perda de resistência, estima-se que seja pouca, pois as voltas são redondas; a perda de resistência mais relevante é a do nó utilizado para seu fechamento em anel (ex.: Pescador Duplo – perda de 45%), que pode ser substituído pelo Oito Guiado.

 

 

Nó Sete

Nó Sete

É semelhante ao Nó Oito Duplo, com aplicação bem diferente. Esse nó forma uma alça direcional que facilita bastante a ancoragem de equipamento em uma corda fixa, montagem de bloco de polias improvisados com mosquetões, ancoragens auto-equalizadas, etc. Pode ser direcionado para cima ou para baixo. Perda de resistência aproximada de 30%.

 

Nó UIAA

Nó UIAA, Dinâmico ou Meio Fiel


Sigla da União Internacional das Associações de Alpinismo, também conhecido como Nó Dinâmico. Juntamente com um mosquetão (preferencialmente em aço) pode ser utilizado como um freio improvisado, controlando a descida através do atrito formado da corda com ela mesma. Tenha cuidado em manter a rosca do gatilho do lado oposto ao da corda da mão de comando, pois caso contrário pode ocorrer a abertura ou sobrecarga no aperto da trava do mosquetão, inutilizando-o. Seu bloqueio é realizado através do Nó de Mula.

Na parte II abordaremos mais nós básicos.

 

 

 

#forçaehonra 

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com