Dicas macetosas: Descensor I’D Petzl

Dicas macetosas: Descensor I’D Petzl

ID - S e ID - L
Altura, Blog,

Dicas macetosas: Descensor I’D Petzl

       Antigamente, num passado não tão distante, equipes de salvamento e resgate vertical sentiam a falta de um equipamento multifunção, que servisse tanto para descer quanto para ascender cordas, compor sistemas de vantagem mecânica, assegurar sistemas de subida e descida de maca, etc. O bom e velho freio oito serviu bastante, e até serve bem ainda para alguns casos específicos, mas a falta de bloqueio automático, a formação de torções na corda e a possibilidade de ocorrência de acidentes devido a descidas rápidas demais fez com que alguns fabricantes fervessem os neurônios para atender essa necessidade. Foi aí que surgiram os descensores de bloqueio automático, tais como o MPD, Stop, Grigri, Quadra, Indy, Spider, entre outros. Mas temos um que se destacou não só pelo fato de possuir o bloqueio automático, mas também pelo sistema anti-pânico, velocidade de descida controlada, etc. Estamos falando do I’D da marca francesa Petzl.

       O I’D (sigla de “Industrial Descensor”) acabou tornando-se o “queridinho” de especialistas pois reúne tudo isso em um equipamento compacto, de fácil manuseio e operação (evidente que você deverá ser treinado e experiente para isso), facilitando a execução de muitas técnicas – o que resulta em menos tempo empregado nas missões, menos possibilidade de ocorrência de erros e multifuncionalidade. ANTES DE PROSSEGUIR LEIA ATENTAMENTE:

AS INFORMAÇÕES DESTE POST SÃO DESTINADAS A PESSOAS TREINADAS E EXPERIENTES NO USO DO ID. O SITE DO FABRICANTE E OUTRAS FONTES DEVEM SER CONSULTADAS. CASO TENHA DÚVIDAS,  PROCURE UM ESPECIALISTA.

AS IMAGENS FORAM RETIRADAS DE MANUAIS E SITE OFICIAL DA PETZL E POSSUEM DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS.

       Existem dois modelos : o I’D – S (disponível nas cores preta e amarela) e o I’D – L (disponível nas cores preta e vermelha).

Descensores ID - S (amarelo) e ID - L (vermelho)

Descensores I’D – S (amarelo) e I’D – L (vermelho)

       Vamos conhecer melhor cada um deles:

Descensor Petzl ID - S

Descensor Petzl I’D S

 

       I’D S (small):  Modelo preferido por equipes de resgate técnico e alpinismo industrial tendo em vista a presença do gatilho no furo central, facilitando absurdamente as manobras que exigem instalação e retirada de corda sem que haja a necessidade de abertura do mosquetão, evitando uma possível queda do equipamento. Funciona em cordas de 10,5 a 11,5 mm, semi-estáticas ou dinâmicas. Pesa 530g. Normas atendidas: EN 341 classe A, CE EN 12841 tipo C, NFPA 1983 Technical Use, EAC

Descensor Petzl ID - L

Descensor Petzl I’D L

 

       I’D L (large): Modelo utilizado por equipes de resgate que seguem padrões da chamada “Escola Americana” (bombeiros estaduais), onde predomina a “força e truculência”, ou seja, cordas de bitolas maiores (geralmente 12,5 mm) e equipamentos mais “parrudos” empregados nas piores e mais exigentes situações, com margem de segurança aceitável. Funciona em cordas de 11,5 a 13 mm, semi-estáticas ou dinâmicas. Esse modelo não possui o gatilho na placa móvel, ou seja, para se instalar ou retirar a corda será necessário a abertura completa do mosquetão e retirada do I’D – isso deve ser feito com cuidado pois existe o risco de queda do equipamento, pois estará “livre leve e solto” nas mãos do resgatista.  Pesa 530g. Normas atendidas: EN 341 classe A, CE EN 12841 tipo C, NFPA 1983 General Use, EAC.

       Agora temos uma questão muito importante e mal interpretada: I’D amarelo é só para trabalhos e I’D vermelho só para resgate? Não. Ambos podem ser substituídos um pelo outro, desde que a bitola da corda seja correspondente a cada modelo e a carga máxima aplicável siga as instruções do fabricante. Quanto ao uso em si é tudo igual! Todas as manobras e aplicações podem ser realizadas com os dois modelos, inclusive operações de resgate.

       Mas e agora, qual deles devo utilizar?

     A grande diferença que deve ser levada em consideração na escolha não só do I’D, mas também dos demais equipamentos utilizados em operações de resgate é a norma NFPA 1983. Essa importante norma especifica requisitos mínimos de segurança para os equipamentos utilizados por equipes dos serviços de emergência durante salvamento, incêndios e outras operações que envolvam altura. Seu padrão de testes garante uma confiabilidade acima de 99% (teste 3-Sigma). Segundo a norma, a performance dos equipamentos é  dividida em três categorias: “E” (Escape), “T” (Technical Use) e “G” (General Use).

  • Escape: Equipamento designado para profissionais de serviços de emergência para escape individual, em situações onde haja risco de vida. Ex.: bombeiro que sai pela janela de um prédio em chamas, descendo até o andar inferior, onde não há fogo.

 

  • Technical Use: Equipamento designado para profissionais de serviços de emergência que possuem um nível de treinamento mais técnico, amplo e exaustivo, podendo beneficiar-se da leveza e menor volume dos equipamentos. Nessa categoria as cargas de ruptura são menores e os equipamentos menos robustos se comparados com os da categoria “G”, portanto experiência e conhecimento técnico são imprescindíveis para o uso seguro destes. Ex.: Equipes de resgate vertical que atuam em cavernas, montanhas, locais de difícil acesso e alpinistas industriais. Observe que geralmente são equipes formadas por especialistas, atuando unicamente nessa área.

 

  • General Use: Equipamentos utilizados em resgates mais simples, onde pode ser comum a ocorrência de intempéries (lama, chuva, sujeira, cantos-vivos, produtos químicos). Nesse caso, a robustez  e carga de ruptura superior garantem uma margem de segurança aceitável. São equipamentos para uso de bombeiros, ou seja, equipe multidisciplinar que atua em várias áreas, incluindo verticalidade. Ex.: Salvamento em altura, resgate em espaços confinados, evacuação de emergência.

 

Agora vamos ver qual das normas cada modelo de I’D atende:

  • I’D S: NFPA 1983 “T” – Uso Técnico;
  • I’D L: NFPA 1983 “G” – Uso Geral.

 

       Eis aí a GRANDE QUESTÃO resolvida.  O termo “força e truculência” que citei como exemplo para os serviços de bombeiros significa que essas equipes são multidisciplinares, ou seja, são treinadas para atender emergências diversas (produtos perigosos, pré-hospitalar, enchentes, captura de animais em situações de risco, incêndios, cortes de árvores, entre outros). As ocorrências que envolvem verticalidade são apenas UM DOS TIPOS DE ATENDIMENTO. Seria impossível exigir que todos os bombeiros tenham um nível de conhecimento avançado para emergências em altura (alguns possuem, por conta própria, mas são minoria). Para isso acontecer, seria necessário criar equipes especializadas para essa modalidade, treinando exclusivamente técnicas de resgate em altura, tal como ocorre na França com as equipes “GRIMP” (Groupe de Reconnaissance et d’Intervention en Milieu Périlleux) – Grupo de Reconhecimento e Intervenção em Meios Perigosos. Nesse caso, o nível de treinamento específico nas técnicas determina se a equipe usa equipamentos classe “G” (Uso Geral), “T” (Uso Técnico) ou de forma mista, conforme cada caso. Como a maioria dos Corpos de Bombeiros no Brasil ainda não possui equipes exclusivas para emergências com verticalidade, equipamentos mais “parrudos” que possam ser utilizados corretamente sem a necessidade de técnicas avançadas, trata-se de estratégia; a regra padrão do “MISS” nunca muda: Mantenha Isso Simples e Seguro.

       Resumindo: se você possuir treinamento e experiência técnica não há impedimentos em utilizar o I’D S para resgate, desde que as recomendações do fabricante sejam seguidas e você conheça os riscos envolvidos. Para maiores informações consulte o site www.petzl.com e se informe com especialistas.

      Muito bem, agora que já quebramos os bizús furados, vamos nos aprofundar um pouco mais sobre o equipamento em si.

Observações:

Ilustrações do manual do ID - Petzl

Ilustrações do manual do I’D – Petzl

Partes do I’D

Partes do ID

Partes do I’D

1-Placa móvel, 2-Placa de atrito, 3-Dobradiça, 4-Came pivotante, 5- Came dentada (bloqueio anti erro), 6-Placa fixa, 7-Manípulo ou alavanca, 8-Botão de liberação (para planos inclinados), 9-Gatilho de abertura da placa móvel, 10-Furo do parafuso para travamento da placa móvel (kit´s de resgate pré-montados).

Posições da Alavanca

Posições da alavanca do ID

Posições da alavanca do I’D

A = Transporte ou armazenamento: nessa posição a alavanca ficará totalmente fechada, para transportar ou armazenar o I’D. Jamais deixe assim com corda instalada, pois forçará o mecanismo da came e poderá danificar a corda;

B = Mãos livres (bloqueio da corda): você sabe que o I’D trava automaticamente quando as duas mãos ficam livres, ok? Mas somente quando a alavanca estiver na posição “B” será considerado bloqueio correto, pois do contrário (posição “C” ou “E”) o acionamento poderá ocorrer sem querer, caso alguma coisa encoste na alavanca (tipo você mesmo, durante sua movimentação), portanto CUIDADO;

Posição de bloqueio do ID

Chave de bloqueio do I’D

C = Posição de descida: Segure a alavanca com a mão esquerda e segure a corda com a mão direita bem à frente do I’D para que a corda corra sobre a guia arredondada. Ao acionar a alavanca você deverá ficar imóvel. A descida ocorrerá quando a mão direita aliviar o atrito com a corda. Se precisar ficar com as mãos livres volte para a posição “B”. A velocidade máxima de descida não poderá ultrapassar dois metros por segundo (sistema anti-pânico).

Posição de descida do ID

Posição de descida do I’D

D = Bloqueio anti-pânico da came: quando você for muito fominha e descer em velocidade superior a dois metros por segundo, o sistema anti-pânico efetuará o bloqueio automático da corda evitando acidentes resultantes de descidas descontroladas. A alavanca ficará solta e perderá todas as funções; para retomar o controle da descida ela deverá retornar para a posição “C” até que se ouça um “click” – isso indica que o mecanismo foi reativado. IMPORTANTE: quando a liberação rápida da corda for algo necessário para a realização do resgate (ex.: rapel de impacto com suicida em sacada de prédio, evacuação de emergência, etc) o uso do I’D pode atrapalhar. Recomenda-se nesses casos outros freios sem sistema anti pânico;

E = Dar segurança a outra pessoa (assegurar): opção utilizada quando você realizar a segurança de alguém que estiver escalando uma torre ou se deslocando por um telhado, por exemplo. O I’D deverá ser posicionado lateralmente com o dedo polegar da mão direita entre a corda e a came dentada. Caso ocorra queda, o bloqueio ocorrerá automaticamente, bastando soltar as mãos.

Fazendo segurança para escalador

Fazendo segurança para escalador

Como instalar a corda

  •        Para uso pessoal (usando o I’D em você):
Instalação da corda no ID

Instalação da corda no I’D

       Se tiver dúvidas olhe as ilustrações gravadas na placa fixa, ao lado da came dentada; se ainda assim estiver indeciso, olhe as ilustrações gravadas na placa móvel; se ainda assim conseguir ter dúvidas, deixe o I’D de lado e vá fazer outra coisa…

 

  • Para uso na ancoragem (I’D ancorado em estruturas):
Instalação da corda com ID na ancoragem

Instalação da corda com I’D na ancoragem

       Não se desespere! a passagem da corda é a mesma, só que agora o I’D será utilizado de ponta-cabeça, com um mosquetão auxiliar.

 

Atenção! Risco!

ATENÇÃO! SEMPRE USE MOSQUETÃO DE REENVIO (OU MOSQUETÃO AUXILIAR), pois se a passagem da corda for feita de forma incorreta a came dentada (bloqueio anti-erro) não funcionará, resultando em queda livre!

 

       Obrigatoriamente após instalar a corda efetue o teste de funcionamento, puxando o lado da corda onde está a ancoragem (uso pessoal) ou onde está a vítima (uso na ancoragem). Faça esse procedimento conectado a uma segunda ancoragem, transferindo-se ao I’D somente após o teste. Se a corda estiver instalada incorretamente não ocorrerá esse travamento.

Teste de funcionamento do ID

Teste de funcionamento do I’D

 

 

       Muito bem companheiro! Agora que já conhecemos o básico do I’D passaremos a relação para outro nível: o emprego operacional. As situações e técnicas são diversas e serão mencionadas em várias outras postagens do blog; mencionaremos agora as mais comuns.

  • Rapel
Posição de descida do ID

Posição de descida do I’D

       Nada de novidade até aqui não é mesmo! Mantenha uma velocidade razoável e controlada. Cuidado ao manipular o I’D após o uso pois estará quente. Use luvas.

 

  • Descida de vítima comandada pela ancoragem
Descida de vítima pela ancoragem

Descida de vítima pela ancoragem

       Novamente: descida com velocidade máxima de dois metros por segundo e uso obrigatório do mosquetão de reenvio. A descida deve ser controlada pela mão que segura a corda, e não pela mão que controla a alavanca; isso resultará em controle melhor do atrito.

       Para descer cargas de até 150 kg, basta utilizar o mosquetão auxiliar. Para cargas máximas admissíveis, ou seja, 250 kg (para I’D S, com corda mínima de 10,5 mm) e 272 kg (para I’D L, com corda mínima de 12,5 mm), deverá ser realizado um Nó Dinâmico (ou Nó UIAA) no mosquetão auxiliar e o I’D deverá ser operado por duas pessoas, sendo que uma controlará a liberação da alavanca e a outra controlará o atrito com o nó, conforme figura abaixo:

Descida de vítima pela ancoragem com carga máxima

Descida de vítima pela ancoragem com carga máxima

 

 

  • Progressão em torres ou estruturas metálicas
Progressão em torres com ID

Progressão em torres com I’D

 

       Eis aí uma técnica bem semelhante a da escalada em rocha clássica: o primeiro progride e o segundo (ou segurança) libera a corda gradativamente, não deixando totalmente tesada, nem totalmente solta; a coisa tem que estar “no ponto”. Para deixar a corda livre mantenha a alavanca na posição “E”, deixe o lado da mão direita com folga e puxe o lado da mão esquerda (lado do escalador) ou ainda posicione o I’D lateralmente, com o polegar da mão direita entre a corda e a came dentada (ilustração acima). Caso ocorra queda basta o segurança soltar as mãos e o bloqueio ocorrerá automaticamente. Após passar o “cagaço” o segurança poderá descer o escalador de forma segura até o chão.

 

 

  • Ascensão
Ascensão com ID

Ascensão eventual com I’D

       Através do I’D, ascensor de punho e pedaleira é possível subir uma corda fixa com pouco esforço – digo pouco esforço, é claro, caso a distância seja curta (uns dez metros mais ou menos). Distância maior resultará em cansaço extremo, visto que existem técnicas mais eficientes e menos cansativas para ascender cordas (ascensor de punho + ascensor ventral, por exemplo). Imagine o seguinte caso: você está fazendo um rapel e esquece algo, ou se enrosca – basta instalar o ascensor de punho subir um pouco e o problema estará resolvido. Para essa manobra a alavanca deverá estar na posição “C” ou “E”.

  • Assegurando subida de vítima
Recuperando a folga da corda de segurança com ID

Recuperando a folga da corda de segurança com I’D

Assegurando subida de maca com ID

Assegurando subida de maca com I’D

 

       Técnica recomendada para usuários experientes. Temos aí duas cordas, a PRINCIPAL (onde estão ancorados socorrista e/ou vítima) e a de SEGURANÇA (instalada no I’D). Quando a corda principal for tracionada através de um sistema de vantagem mecânica (que também pode utilizar o I’D!), a folga da corda de segurança deverá ser recolhida, de forma que se a principal falhar a carga seja distribuída na outra de forma automática. Se houver folga demasiada haverá aumento do fator de queda – fique esperto!

       Como pode ver o assunto é extenso e a aplicação do I’D no dia a dia dos profissionais da verticalidade também. Esse post trouxe algumas informações, mas o assunto não se esgota aqui. Acompanhe nosso blog e você verá outras inúmeras formas de utilizar o I’D, por exemplo, compondo sistemas de vantagem mecânica (para ver esse post clique aqui);

       Acesse nosso vídeo e veja algumas aplicações práticas das técnicas mencionadas.

#forçaehonra

facebook

Dicas macetosas: Descensor I’D Petzl

Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com