Crônica #7 – Morte, A Professora de Vida

Crônica #7 – Morte, A Professora de Vida

#7 - Morte, a Professora de Vida
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #7 – Morte, A Professora de Vida

       O Homem do Fogo havia acabado de sair de plantão, e havia sido um plantão daqueles – muitas ocorrências, pouco descanso e algumas infelizes oportunidades de observar com os próprios olhos, o mal que bebida alcoólica e trânsito podem causar. Algumas mães estariam chorando até o amanhecer do dia, iniciando o velório de um filho, ou aguardando o término da cirurgia do outro, vivendo a desgraçada experiência que resulta dos excessos, das desobediências, dos abusos e das imprudências.

       Seria um dia cheio de compromissos – compras, banco, levar a filha para uma consulta médica, e tantas outras coisas que não podem ser resolvidas nas vinte e quatro horas de plantão, ficando para as folgas. Ele se sentia exausto e estava sobrecarregado mentalmente; pensou um pouco e concluiu que cada vez que atendia alguma ocorrência, estando exposto a tantas ocasiões de desgraça, morte e violência – comuns em seu serviço – acabava de alguma forma absorvendo um pouco da energia negativa daquelas ocasiões; em algum momento ele seria como uma bomba – explodiria de alguma forma. Naquele dia, essa bomba mostrava sinais de intensa atividade. O Homem do Fogo estava cansado e sua vida pessoal começava a sofrer desgastes, resultando em noites de insônia e dias de mal humor.

       Enquanto aguardava sua vez, uma enfermeira chegou e sentou-se à mesa da recepção. Era uma mulher de aproximadamente cinquenta anos de idade, simpática e educada. Começaram a conversar para matar o tempo. Ela falou que trabalhava em um grande hospital, cuidando de pessoas com câncer em fase terminal e acabara de sair de plantão, iniciando sua segunda jornada de trabalho naquela clínica. O Homem do Fogo imaginou que o fato de ela trabalhar num ambiente no qual nem todos os pacientes logravam êxito no tratamento e acabavam morrendo, a tal energia ruim também deveria tê-la afetado ao longo dos anos. Não acontecia só com ele.

       – Estou terminando de pagar um consórcio de um caminhão e me aposento ano que vem. Vou virar caminhoneira, como meus irmãos e meu pai. Vou conhecer o Brasil inteiro e ter muita coisa pra contar! – falava orgulhosa e satisfeita.

       – Ver tanta gente morrer de forma triste e trágica, com pouca ou muita idade, ricos ou pobres, me fez dar muito mais valor à tudo o que tenho e faço. Coisas que consideramos fúteis aqui fora significam grandes conquistas para quem está lutando para continuar vivendo – por isso tento fazer cada dia valer a pena – concluiu a enfermeira.

       De forma arrogante e orgulhosa, às vezes ele achava que seus míseros anos de experiência o fazia entender alguma coisa da vida, mas agora recebia uma correção. Em silêncio, olhando com profundo respeito para a enfermeira, pensou consigo mesmo: Deus, em sua Sabedoria Infinita, permite que algumas pessoas estejam expostas a certas situações difíceis e complicadas nas diversas áreas da vida, mas nunca as deixa só. Ele sempre envia pessoas que provam Sua existência e Sua preocupação com a raça humana, inspirando paz, coragem e ânimo nos demais. Naquela manhã, a enfermeira servia como remédio eficaz, que curou imediatamente o momento de estresse do bombeiro. Agora, ao invés de se sentir exausto, provava agradável sensação de gratidão. A morte, sempre em contato muito próximo do Homem do Fogo, poderia ensiná-lo a viver melhor essa vida, aproveitando a chance que muitos não terão mais. A enfermeira, pessoa já experimentada nisso, irradiava luz e boa energia, graças às oportunidades concedidas pela morte, sua notável professora.

       O Homem do Fogo lembrou que dificilmente tinha tempo ocioso em uma tarde no meio da semana, pois os compromissos haviam roubado isso de forma muito sutil. Resolveu deixar tudo e aproveitar para passear em um dos parques da cidade com sua família – algo que seria fútil em uma tarde de correria e compromissos, mas que agora, sob o ponto de vista que as amargas experiências da morte o ensinaram, faria daquela tarde um momento único e especial.

autor: Geison Matochi

foto: divulgação / internet

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com