Crônica #6 – Utopia dos Tempos

Crônica #6 – Utopia dos Tempos

#6 - Utopia dos Tempos
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #6 – Utopia dos Tempos

       O Homem do Fogo havia chegado a um lugar que revelava na simplicidade a mais notável beleza. Ele nunca havia estado numa cidade que inspirava tanta paz e serenidade como aquela. Muita coisa não fazia sentido: todas as casas eram feitas de madeira, não haviam muros, as ruas eram de terra e absolutamente em todas as direções que se olhava havia flores, plantas, árvores e animais convivendo juntos de forma pacífica. Não se via uma sujeira sequer, mesmo as ruas sendo de terra. As crianças corriam  livremente, as pessoas estavam fora de suas casas, conversando em rodinhas, rindo e brincando uns com os outros; deu para perceber que todas se conheciam, pois se chamavam pelo nome. O Homem do Fogo resolveu caminhar um pouco por ali, curioso para descobrir um pouco mais sobre aquele povo.

       Enquanto andava ficou meio sem graça, pois para todos que olhava ouvia um caloroso “bom dia!” acompanhado de um sincero sorriso. Ele havia nascido e vivido em São Paulo, terra de congestionamento, correria, empurra-empurra, entra e sai do metrô, gritaria nas lojas do centro, pessoas indo e vindo sem se olharem… Uma certeza ele tinha: devia estar no interior.

       Muitas pessoas trocavam coisas umas com as outras – tecidos feitos à mão, frutas em cestas de palha, flores, vasos de barro e toda sorte de artesanatos e coisas naturais; parecia que nada era industrializado, mas tudo tinha um toque especial de quem o fez. As pessoas também não pegavam dinheiro do bolso – elas trocavam as coisas ou doavam, e para finalizar o “negócio” davam um abraço, novamente acompanhado do sorriso sincero. O Homem do Fogo pensou consigo mesmo: como será que funciona o Posto de Bombeiros daqui? E riu-se sozinho, continuando sua agradável caminhada.

       Passou por um homem que parecia muito pobre, com as roupas sujas de terra, testa suada, possivelmente por ter ajoelhado várias vezes no chão. Estava bom demais para ser verdade, pois até ali havia morador de rua – mas que seja, pelo menos é um só – pensou o Homem do Fogo rindo sozinho novamente.

       No centro de uma vistosa praça, contornada com flores brancas e rosadas extremamente cheirosas havia um homem bem vestido fazendo carinho em um cachorro. Provavelmente deveria ser alguém muito importante. O Homem do Fogo se aproximou a fim de fazer algumas perguntas e manifestou seus cumprimentos se esforçando para exibir o mesmo sorriso sincero que havia visto nas outras pessoas.

       -Olá! Estou maravilhado com esse lugar! Nunca em minha vida eu havia conhecido uma cidade tão simples e ao mesmo tempo tão bela e inspiradora como essa! Você deve ser o prefeito daqui, correto? – perguntou o Homem do Fogo.

       -Nossa cidade é realmente muito linda e aconchegante; ela já inspirou muitos poetas e escritores que passaram por aqui. Mas eu não sou o prefeito daqui – aliás, estou na fase inicial do aprendizado, pois cheguei há pouco tempo. Visto-me com as melhores roupas, me alimento das melhores comidas e moro na casa maior e mais bem estruturada, porém devo batalhar a cada dia para me manter sereno e humilde, não permitindo que esses caprichos me afastem de minha essência, que é servir aos demais com amor e gratidão. Não é fácil, mas estou começando. Eles fazem assim com os novatos, até que todo ego e orgulho deixem de existir. Os mais velhos sempre estão à disposição para me orientar – respondeu o homem bem vestido.

       – Se você não é o líder quem é então? – perguntou o Homem do Fogo.

– Você passou por ele – respondeu o homem rindo, apontando para o que estava com a roupa suja. O Homem do Fogo se sentiu envergonhado pela primeira vez.

– Mas então porque ele está naquela situação?

       – Ele está na fase de aprendizado mais avançada: ele se encarrega de servir a todos – e isso inclui pessoas, animais e plantas. Hoje é o dia em que ele está servindo as plantas, colocando sementes no solo, afofando a terra, limpando canteiros, coisas assim. Mas ele também cura pessoas que ficam doentes, limpa feridas, faz chás, traz ervas medicinais, faz orações… Esses dias levaram pra ele um cachorro todo estropiado, com feridas cheias de vermes. O coitado estava magro e cheirava mal. Ele, com todo amor e dedicação, cuidou como se fosse uma parte de si próprio.

       – E o cachorro?

       – Pois era o que eu estava brincando agora pouco, antes de você chegar! Respondeu o homem bem vestido. O Homem do Fogo não acreditava no que vira. O cachorro parecia mais saudável do que nunca! Despediu-se sem muita dificuldade para exibir o sorriso sincero dessa vez. Saiu rápido, curioso para conversar com o tal líder.

       – Ei! Desculpe incomodar! Posso falar com o senhor um pouco? – perguntou ansioso.

       O homem simples, de baixa estatura, parou o que estava fazendo. Secou o suor na testa, deu uma balançada na poeira da roupa e estendeu sua mão, novamente acompanhada de um grande sorriso. Os dois se olharam bem no fundo dos olhos; o Homem do Fogo retribuiu o sorriso.

       – Que Deus te abençoe filho! – disse o homem – seguido de um “amém” do visitante.

       – Acabei de falar com o rapaz na praça e ele disse que o senhor é o líder daqui. Eu gostaria de fazer umas perguntas, se não for atrapalhar é claro.

       – Você não vai atrapalhar, estou aqui para servir e por favor, não me chame  de “líder”; o cachorro da praça sim é líder! – esses dias ele me ensinou coisas grandiosas! Graças a ele, eu aprendi que a dedicação e o amor podem curar as mais terríveis feridas.

       O Homem do Fogo se sentiu envergonhado pela segunda vez. Nunca havia dado oportunidade para um animal ensiná-lo a amar como o homem humilde havia feito.

       – Como vocês fazem para tudo aqui funcionar perfeito desse jeito? Tudo equilibrado, pacífico, calmo, limpo… e as pessoas! Todas felizes! Conversando umas com as outras, fora de suas casas, sem muros, com janelas e portas abertas… como é possível? Onde eu moro isso seria loucura! Há muito tempo não via ninguém viver dessa forma e gostaria de entender o segredo de vocês – perguntou o Homem do Fogo.

       – Muito simples filho! Tudo o que existe no universo, ao mínimo sinal de ordem, limpeza e equilíbrio, começa a emanar energia positiva, e esta, por sua vez, atrai mais e mais energia positiva, fazendo com que tudo à sua volta se conecte entrando em equilíbrio. Aqui todas as pessoas, coisas, plantas e animais seguem essa regra: as pessoas se dedicam umas às outras, pois uma vida em comunidade precisa de olhos olhando dentro dos seus, pessoas te chamando pelo nome e um indivíduo ofertando o que possui de melhor ao outro; este, por sua vez, também oferece seu talento aos demais, por isso não precisamos de dinheiro, apenas do talento de cada um; as plantas crescem livremente, as árvores permanecem serenas em seu espaço e nos dão frutas quando o tempo certo chega; colhemos o necessário e aguardamos sua vontade em nos ofertar mais; os animais nos dão leite, ovos, companhia, carinho e em troca permitimos que eles entrem em nossas casas, durmam, bebam e se alimentem conosco. Nada aqui é industrializado, feito em grande escala ou acumulado para ser revertido em lucro. Ficamos satisfeitos com o necessário, e a terra sempre nos honra com abundância e prosperidade. Ninguém aqui passa fome, fica sem um lugar para morar, sem água ou sem trabalho. Todos aqui são o que são e se ajudam mutuamente cada um com sua arte. Não existe raça, nível social ou crenças conflitantes; somos partes de um Todo, e, portanto, nos amamos como a nós mesmos.

       – Vocês não têm políticos, carros, dinheiro, banco e autoridades? Como pode uma cidade se estruturar sem essas coisas? O Homem do Fogo estava cada vez mais maravilhado com tanta sabedoria.

       – Como todos e tudo aqui está imerso num ambiente de ordem, amor, paz e equilíbrio, não precisamos de políticos, pois todos sabemos do grande líder que existe dentro de nós; não precisamos de carros, aliás, não seria possível, pois não agrediríamos a terra para extrair dela petróleo que poluiria nossos rios e nosso ar, – andamos a pé! E graças a isso nossos idosos possuem excelente saúde. Dinheiro é inútil, pois ele não compra nossa paz. Nossa moeda é a troca de coisas feitas pelas nossas próprias mãos – trocamos ovos por leite, leite por tecido, tecido por frutas de forma que todos aqui fazem alguma coisa que é útil para todos. O dinheiro só nos traria mesquinhez; o banco então nem imagina! – deu uma gostosa gargalhada.

– Ah, esqueci das autoridades! Em nossa cidade cada um cria a sua autoridade, através do que pensa, demonstra através de comportamentos e também do nível de dedicação e amor que coloca nas coisas que faz. Autoridade aqui significa o quanto você faz para as pessoas te considerarem e te amarem verdadeiramente; em outras palavras, está diretamente ligada à moral do indivíduo. Não é algo imposto, mas conquistado dia após dia. Portanto, o rapaz que você viu na praça um dia será uma autoridade aqui; ele tem boa vontade e é dedicado. O Homem do Fogo ficou novamente envergonhado, se lembrando dos momentos que inutilmente achou que condição social, posto ou graduação significavam alguma coisa. Emocionado por estar aprendendo coisas de altíssima sabedoria que se revelavam através daquele humilde senhor com seus 70 ou 80 anos de idade, lançou sua última pergunta:

       – Onde fica essa cidade?

       O homem humilde mostrou um sorriso maroto, deu as costas e começou a caminhar. Subitamente o Homem do Fogo se sentiu caindo, numa velocidade cada vez maior. Deu um salto em seu beliche e ouviu a voz alta e chiada nos alto-falantes do alojamento do quartel:

– Atenção prontidão de serviço, seis horas! Alvorada!

 

 

autor: Geison Matochi

foto: Shutterstock

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com