Crônica #5 – Lágrimas no Alojamento

Crônica #5 – Lágrimas no Alojamento

#5 - Lágrimas no Alojamento
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #5 – Lágrimas no Alojamento

       Era uma tarde fria. Turistas saboreavam a variedade de vinhos movimentando os restaurantes e adegas da pacata cidade. O cheiro de lenha queimada era levado pelo vento suave a todo lugar. Enquanto isso, numa de suas principais avenidas, um carro em alta velocidade conduzido por um pai desesperado levava uma garota atropelada para atendimento médico. Na outra extremidade da mesma avenida vinha uma viatura de resgate ao seu encontro. De longe a viatura pôde ser visualizada e o pai deu sinais com o farol alto parando no meio da rua; a viatura fez o mesmo, ocupando os dois sentidos, no intuito de interromper a passagem de outros veículos e sinalizar o local, para atender a vítima. O Homem do Fogo era novo, pouco experimentado nesse ofício. Ao parar a viatura ele desceu, e sem ter tempo de raciocinar recebeu das mãos da mãe uma menina que deveria ter uns sete ou oito anos, com graves ferimentos, possivelmente com fraturas diversas, chorando. Ele olhou nos olhos da criança e ela nos olhos dele, e segurando-a em seus braços sentiu o peso da responsabilidade do seu trabalho. O olhar inocente que suplicava socorro era acompanhado do grito dos pais “salve minha filha! salve minha filha!”. Naquela ocasião o Homem do Fogo era um recruta, rapaz de pouca idade; poderia estar ocupado com livros ou videogame naquela tarde se não tivesse escolhido ser bombeiro; mas ele era, e agora precisava realizar na prática as importantes lições aprendidas no Curso de Resgate e Emergências Médicas.

       Rapidamente levou a menina para o interior da viatura e iniciou os procedimentos previstos em protocolo. A viatura era conduzida por um motorista experiente nos serviços de resgate, pai de duas meninas; imaginando o desespero da família ele utilizou todos os atalhos possíveis para evitar o trânsito e chegar com a máxima rapidez ao hospital.

       O Homem do Fogo ministrava oxigênio e monitorava os sinais vitais de sua pequena vítima. Percebeu que ela havia parado de chorar e imediatamente checou seu pulso – estava presente, mas a ausência de choro não era bom sinal, pois indicava perda de consciência. Alguns poucos quilômetros que o separavam do hospital levavam uma eternidade para chegar.

       -Central, QAP?! avise o hospital que a criança ficou inconsciente! Glasgow cinco QSL! Glasgow cinco! – exclamou o comandante da unidade de resgate no rádio.

       -QSL resgate! Prossiga para a Santa Casa!

       Finalmente a viatura subiu a rampa que dava acesso à entrada e a equipe médica já ciente, recebeu a maca e conduziu a menina para o interior da sala de emergência. Encerrava-se ali tudo o que os Homens do Fogo poderiam ter feito pela garotinha. Antes de se ocupar da limpeza do sangue que ficou na viatura e na sua farda, o recruta observou a movimentação no hospital: entrou mais um médico, saiu uma enfermeira correndo e voltou com um pediatra; parecia que toda a atenção estava voltada para a recém-chegada vítima de atropelamento. Os outros pacientes pareciam conformados em terem ficado para depois – todos estavam chocados com o ocorrido e queriam que a garota ficasse bem. O Homem do Fogo assistia a tudo, pensando em como reagiriam os pais. Mas, cadê os pais? Haviam seguido a viatura até certo ponto, depois provavelmente se perderam pelo caminho, pois estavam muito nervosos.

       Após alguns minutos a porta da sala da emergência se abriu, a equipe médica se retirou desolada e uma enfermeira tentando disfarçar o choro puxou uma maca em direção ao necrotério. O Homem do Fogo entrou em choque. A tristeza o dominou, fazendo-o sentir-se culpado por não ter conseguido fazer nada pela menina; toda vez que um bombeiro sai para salvar uma vítima e a perde, ocorre isso – sentimento de incapacidade.

       Terminou a limpeza da viatura se sentindo inútil e impotente. Ficou visível que toda a equipe tinha sido afetada, desde o bombeiro mais recruta ao médico mais experiente. “Ninguém está preparado para aceitar a morte de uma criança” – pensou consigo mesmo. O sargento tentando parecer forte e notando o impacto que aquilo havia causado, se aproximou do recruta, deu três toques em seu ombro e desabafou:

       -Vai se acostumando novinho… um dia se ganha e em outro se perde. Mas vale a pena pois geralmente a gente ganha. Vi sua dedicação e empenho, fique em paz pois trabalhou bem.

       A viatura saiu do hospital e ninguém se falou durante o regresso.

       O motorista perguntou ao comandante da guarnição:

       – Chefe, podemos dar uma passada em casa antes de voltar para o quartel? Preciso ver minhas filhas.

       – Sem novidade… vamos sim. Eu não tenho filhos ainda, mas faço questão de abraçar suas meninas – respondeu o sargento.

       Chegando ao quartel todas as brincadeiras comuns nas vinte e quatro horas de plantão, os comentários da última ocorrência e alguns assuntos fúteis desapareceram e deram lugar ao silêncio; o Homem do Fogo se retirou para o alojamento. Sentindo a necessidade de dissolver o aperto no peito, se ajoelhou, faz uma oração pela família da vítima e chorou copiosamente. As lágrimas que caíam o libertavam um pouco da tensão e do sentimento pesado e desgraçado que aquela última hora havia trazido.

       Anos mais tarde, essa ocorrência ressurgiu das memórias do Homem do Fogo como um fantasma, quando seu primeiro filho nasceu. Enquanto ele observava sua criança no berço da maternidade e sentia a delícia do amor incondicional invadir sua alma, lembrou-se de como deve ter sido difícil para os pais a perda desse importante laço de forma bruta, covarde e inesperada. Chorou novamente e refez a oração, desejando que tenham encontrado forças para continuar a vida que restou a eles da melhor forma possível.

autor: Geison Matochi

foto: divulgação / internet

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com