Crônica #4 – Conversa com o Mensageiro

Crônica #4 – Conversa com o Mensageiro

Crônica #4 - Conversa com o Mensageiro
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #4 – Conversa com o Mensageiro

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     Cansado de ver tanta corrupção, injustiça e inversão de valores, o Homem do Fogo desligou a televisão e foi para um parque perto de sua casa, a fim de relaxar e ler um livro que levasse até sua mente algo de útil e agradável. Sentou-se aos pés de uma árvore, mas não conseguiu se concentrar por causa dos pensamentos incômodos que não iam embora; deixou o livro de lado e iniciou uma reflexão sobre algumas experiências de sua vida. Era incompreensível: pessoas desonestas pareciam ter prosperidade e sucesso, em contrapartida as honestas pareciam sofrer na pobreza, enfrentando problemas intermináveis. Ele questionou Deus.

       – Cadê as recompensas das pessoas de bem que educaram seus filhos no bom caminho, pagaram suas contas em dia e foram justas durante toda a sua vida? Parece que falta tanta coisa pra elas! Trabalham de sol a sol e acabam tendo que se contentar com migalhas das coisas boas da vida! Enfrentam filas intermináveis nos hospitais, pagam altos juros e impostos, são roubadas, enquanto outros parecem estar tão bem, desperdiçando água e comida em nome do status, luxo e elegância, maltratando animais e pessoas, estacionando em vagas de idosos e deficientes, usando de toda a forma possível para obterem vantagens injustas! Como posso aceitar disso?

       A resposta veio de uma forma jamais imaginada.

       O Homem do Fogo sentiu uma sensação agradável de paz surgir de repente, invadindo toda a sua alma, deixando de lado a amargura que sentia; olhou para um banco de madeira próximo da pista de caminhada do parque e viu um homem de aproximadamente quarenta anos, com ar simpático e sorriso largo. O homem o cumprimentou com um aceno de cabeça e ele respondeu. Quando voltou aos seus pensamentos o homem exclamou:

       – Ninguém falou que seria fácil! Porque a reclamação?! – Parecia que aquele estranho havia lido seus pensamentos.

       – Quem é você? – perguntou o Homem do Fogo.

       – Quem é você pergunto eu! Se você soubesse quem é não estaria perdendo tempo contaminando sua mente com essas besteiras! Estaria fazendo algo útil para amenizar o sofrimento das outras pessoas; o caminho para você encontrar a paz que tanto almeja é esse: se reconectar com sua essência. Você é um ser grandioso, mas falta descobrir isso!

       – Quem pensa que é para falar assim comigo? – retrucou o bombeiro.

       Foi você quem começou a discussão! – respondeu o homem.

       Se aproximando, estendeu a mão gentilmente e o convidou para levantar. Ao tocá-la, o Homem do Fogo sentiu um “flash” e imediatamente não estava mais no parque.

       Ambos foram projetados para o topo de uma montanha, sentados em volta de uma fogueira. No horizonte havia um lindo pôr do sol que coloria o topo de outras infinitas montanhas em tons alaranjados. Uma brisa levemente fria soprava algumas folhas pelo chão trazendo um agradável aroma de muitas flores; os únicos sons que quebravam o silêncio absoluto era a brisa e o estalo das madeiras queimando. O Homem do Fogo admirado com a magnífica beleza do lugar, perguntou:

       – Quem é você?

       – Sou alguém que já te foi apresentado muitas vezes, mas você achou que não existia. Vim trazer respostas aos seus questionamentos – respondeu o homem.

       Ele se levantou, ficou de frente para as montanhas e estendeu as mãos para cima. Surgiu um tipo de telão imenso na sua frente. Cenas marcantes da vida do Homem do Fogo eram mostradas de forma rápida e resumida. Ele assistia desfrutando de uma percepção muito mais profunda que a habitual, pois via o que acontecia nos “bastidores” de seu cotidiano. Nos incêndios em que correu risco de vida e teve medo e em momentos de dúvidas e conflitos internos via o mensageiro presente, sugerindo coisas em sua mente que foram imprescindíveis para resolver as situações. O mensageiro fazia com que dificuldades e problemas acontecessem regularmente, obrigando o Homem do Fogo a ficar mais entregue às preces e à fé. Em pouco tempo tudo se resolvia, mas assim que a fase de prosperidade e paz retornavam, ele novamente se distraia com as coisas do dia a dia e deixava de buscar desafios, que exigiam foco, proatividade e coragem, mergulhando na zona de conforto, onde a incredulidade, estagnação e falta de perspectivas o ancoravam a uma existência fútil e sem significado. Agora o Homem do Fogo via claramente a importância que os reveses tinham em sua vida: eram eles que o colocavam na busca de soluções e respostas que sempre eram alcançadas. Era fora da zona de conforto que ele se superava.

       Em uma das imagens viu o mensageiro fazer com que esquecesse a carteira em casa. O Homem do Fogo se viu irritado e praguejando enquanto retornava para buscá-la pois estava atrasado, mas agora, pôde observar que esse atraso o desviou de um caminhão que se perdeu em uma das curvas da rodovia pela qual passaria.

       Também assistiu os momentos vividos com amigos. Se sentiu feliz num mundo que para alguns é solitário e amargo; viu o resultado positivo que suas atitudes boas causavam nas pessoas, mesmo sendo apenas uma conversa informal ou um bom dia sincero para um estranho; no frio, sua cama confortável garantia um sono aconchegante, e no calor a água fresca saciava a sede. Por último, viu sua esposa e sentiu o amor sincero que emanava do ventre dela; suas mãos massageavam feliz a barriga de grávida. Não conseguiu ver mais nada. Caiu de joelhos e se curvou sob os pés do mensageiro, pedindo perdão por ser tão mesquinho e por não reparar em quantas coisas boas aconteciam em seu cotidiano fazendo-o feliz e próspero de todas as formas possíveis, como uma retribuição justa por tudo que fazia em sua vida. O Mensageiro pediu que levantasse e lhe deu um abraço, transmitindo um amor intenso que ainda desconhecia. Se despedindo, deixou as seguintes palavras:

       – Seja como essa fogueira: leve luz para quem está na escuridão e calor para quem teve o coração congelado pelo egoísmo. No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, pois Eu venci o mundo.

       O Homem do Fogo acordou sentado aos pés da árvore com o livro caído ao seu lado, e em lágrimas, passou a entender verdadeiramente como Deus tão grande e sábio sempre esteve presente em sua vida de forma silenciosa, terna e simples. Compreendeu que tudo é experiência e conhecimento que contribui para nossa evolução; que riquezas verdadeiras são as que não podem ser definidas ou medidas, apenas sentidas.

autor: Geison Matochi

foto: internet

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com