Crônica #8 – A Matemática e o Mendigo

Crônica #8 – A Matemática e o Mendigo

# 8 – A Matemática e o Mendigo
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #8 – A Matemática e o Mendigo

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       – Guarnição de resgate, à postos! Atropelamento, uma vítima consciente, possível fratura de membros inferiores… – o som dos auto falantes do posto de bombeiros anunciavam mais uma ocorrência.

       A equipe rapidamente desceu, e saiu no meio da madrugada, clareando cada esquina da silenciosa cidade com as luzes da viatura, ecoando por onde passava o som inconfundível da sirene.

       Enquanto a cidade dormia tranquila e a viatura barulhenta atravessava suas ruas, o Homem do Fogo observava como tudo ficava mais interessante à noite. Sem as buzinas, congestionamentos e fumaça dos carros o ambiente ficava mais sereno, o espaço nas ruas mais confortável e o ar mais fresco e gostoso de ser respirado. A lua cheia viva e imponente clareava as esquinas inspirando casais apaixonados, servindo de companhia para pessoas solitárias ou convidando alguns insetos a saírem das tocas, produzindo uma sinfonia de grilos e outros bichos que podiam ser ouvidos quando passavam perto de algum parque ou jardim, à caminho da ocorrência. Percebendo que estava chegando, o Homem do Fogo mentalizou os procedimentos que iria adotar e deixou o material de primeiros socorros no jeito.

       Ao perceber quem era, a parte orgulhosa e arrogante da mente do Homem do Fogo produziu uma piadinha de mau gosto para seus colegas – tinha que ser um “pingão” pra dar novidade nessas horas da madrugada! – mas, apesar do infeliz comentário, atendeu a vítima cumprindo o que era previsto em protocolo, com a mesma atenção e cuidado que seria dispensado a qualquer pessoa, independente de ser morador de rua ou não, estar embriagado ou não.

       Era uma contusão na perna acompanhada de alguns ferimentos. Ao colocarem o morador de rua no interior da viatura, o Homem do Fogo percebeu que ele não estava embriagado. O homem cheirava mal, estava com as roupas sujas e carregava uma mochila velha, que provavelmente era o único “patrimônio” que possuía. Para tentar se sentir melhor do infeliz comentário que havia feito julgando o morador de rua pela aparência, o Homem do Fogo começou a conversar – afinal, o caminho até o hospital levaria alguns minutos e faria bem alguém falar com aquele homem olhando-o nos olhos, chamando pelo nome, com todo o respeito que geralmente ninguém oferece para pessoas como ele.

       – Como é seu nome?

       – João Batista, senhor – respondeu o morador de rua mostrando nitidamente um interesse pelo diálogo, pois há muito tempo ninguém falava com ele.

       – Bonito nome! o mesmo do homem que batizou Jesus Cristo! E por favor, não precisa me chamar de senhor – respondeu o Homem do Fogo.

       – Faz tempo que você está morando na rua João?

       – Faz um bocado; fico de tempos em tempos numa cidade, depois vou para outra, ando bastante a pé, às vezes dá certo uma carona, às vezes ganho alguma passagem ou compro com um dinheirinho que alguém me dá, e aí vou vivendo, conhecendo os lugares e as pessoas.

       – E como é morar na rua?

       – É uma vida bem diferente da que eu tinha. Cada dia é vivido de cada vez, porque não se têm certeza de nada na rua; se me alimento agora, não posso ter a certeza de quando será a próxima refeição; cada noite é dormida num lugar diferente, mas Deus nunca deixa faltar nada. A parte ruim de morar na rua são as pessoas; elas te tratam como um estorvo, um lixo; quando raramente decidem olhar pra você e falar alguma coisa, é sempre pra mandar sair, expulsar da frente da casa, jogar coisas em você, te usando para fazer piadas e brincadeiras de mau gosto – mas também tem outras que te tratam bem, te dão roupas, comida ou simplesmente alguns minutos de conversa, igual você está fazendo, aí a gente se sente um pouco mais humano, mas isso é bem raro. Nesse momento o Homem do Fogo se sentiu culpado com enorme peso na consciência, e decidiu que até chegar ao hospital, conversaria calorosamente com o mendigo, como se este fosse seu amigo, aliás, como gostaria de ser tratado caso ele mesmo estivesse naquela situação.

       – As pessoas são como as operações matemáticas – continuou João Batista – umas somam, outras subtraem, outras dividem, outras multiplicam e aí vai.

       O Homem do Fogo achou interessante a comparação e pediu ao João Batista que explicasse melhor.

       – As pessoas que somam são muito boas e positivas; se você está de um jeito e elas chegam, sempre trazem algo de bom que é adicionado a você, e, a partir daí, suas ideias, sua fé, suas risadas e muitas outras coisas boas crescem mais dentro de você. Acho, particularmente, que Deus usa bastante esse tipo de gente pra ajudar pessoas como eu. O símbolo da operação da soma são duas retas, sobrepostas entre si, como uma cruz – se as pessoas somam algo a você, existe uma ligação, ou seja, os espíritos se “cruzam” e ficam unidos.

       – As pessoas que subtraem são o oposto disso – elas tiram o pouco que você pode ter. Subtraem sua alegria, sua saúde, sua paz e o pior de tudo – o respeito, que talvez seja a única coisa que alguém como eu possa desejar dessa sociedade individualista e mesquinha. Quem mora na rua já não têm nada, e ainda mais sem respeito poxa vida! Veja só o símbolo da subtração – uma reta sozinha, solitária, assim como esse tipo de gente é. Ninguém quer uma pessoa negativa por perto.

       – Os divisores são bem parecidos com os que subtraem. Quando você tem um todo e divide, passa a ter duas metades. Agora cada metade é algo individual e não uma coisa só como era antes. A maior decepção da minha vida foi causada por uma pessoa divisora. Observe que infeliz é o símbolo da divisão: dois pontos separados por uma reta; dois pontos importantes entre si, separados por uma desgraçada reta. João Batista ficou emocionado deixando uma lágrima escorrer pelo rosto marcado pelo sol, mas tratou de secá-la rápido. O Homem do Fogo ficou curioso e pensou em perguntar sobre a tal decepção, mas resolveu aguardar o término da explicação.

       – E finalmente temos os multiplicadores – continuou João – são amigos íntimos dos somadores. Um soma, outro multiplica e quando estão juntos as coisas crescem e se tornam mais prósperas. Se você está feliz a pessoa multiplica sua felicidade, multiplica os minutos de paz, olha dentro dos seus olhos e te trata como uma pessoa “socialmente ativa” e desta forma multiplica também o respeito que tanto faz bem. Sendo amigos íntimos dos somadores, utilizam o mesmo símbolo, agora posicionado de outra maneira, mas ainda assim está unindo duas pequenas retas, assim como ocorre entre essas pessoas.

       O Homem do Fogo admirado com o vocabulário de João Batista e com toda a sabedoria contida em suas palavras, já não aguentava mais o remorso decorrente de sua atitude. Aquele homem não era um morador de rua embriagado, e mesmo que fosse, o respeito cairia bem de qualquer forma. Ainda interessado na tal desgraça que acontecera na vida de João, o Homem do Fogo disparou sua pergunta derradeira:

       – E o que aconteceu para que você fosse morar na rua? Se não quiser falar sobre isso, tudo bem, eu entendo…

       – Olha bombeiro, vou falar pra você porque até agora me tratou com um respeito que há muito tempo eu não via. Eu tinha uma esposa e dois filhos. Estava numa fase de muito trabalho, começando um negócio próprio. Sou formado em Engenharia, com especialização no exterior, professor universitário, falo dois idiomas fluentemente e era sócio de uma construtora promissora na época; hoje ela é uma das maiores da cidade que eu morava. Porém sempre gostei de pintura e artesanato e então decidi abrir meu próprio atelier. Minha esposa nunca concordou com isso. Ela achava inconcebível a ideia de trocar meu escritório no décimo andar por uma “lojinha de tranqueiras”; falava que seria uma vergonha perante o círculo social que frequentávamos falar que seu marido havia deixado suas funções importantes para se dedicar ao artesanato.

       O problema começou quando notei que meus momentos de família feliz haviam se perdido. Os compromissos, reuniões e viagens visitando clientes e investidores garantiam um padrão de vida cada vez mais luxuoso, mas em contrapartida roubavam partes importantes de minha vida, como acompanhar o crescimento dos filhos, passear e brincar no quintal. Minha esposa encontrou nas roupas de grife, joias finas e eventos da alta sociedade uma válvula de escape para ocultar o fracasso que éramos como casal. Às vezes ficávamos dias nos falando somente por telefone. Nossa relação foi esfriando até chegar a um nível insuportável. Meus filhos tinham de tudo que era bom, caro e fino. Tal como a mãe, viam no dinheiro uma forma de preencher o vazio que eu deveria estar ocupando. Eu me transformei em um homem mesquinho, arrogante, egocêntrico e materialista. Meu corpo começava a dar sinais de desgaste, pois eu nunca tirava folga; às vezes atravessava feriados e finais de semana trabalhando incansavelmente sozinho no escritório. Quando tive minha primeira suspeita de infarto percebi que só havia um jeito de resolver tudo: abandonando drasticamente aquela vida. Decidi que só faria algo que eu gostasse, aproveitando o tempo de descanso para estar em casa com todos, viajar, jantar juntos, passear com o cachorro, etc. Minha esposa ficou totalmente transtornada com minha escolha; com medo do que os outros iriam pensar se nosso nível social caísse, foi fazendo a cabeça dos meus filhos, de forma lenta, maldosa e convincente. Quando menos eu esperava, ela pediu divórcio, exigiu meus bens e conseguiu a guarda das crianças, alegando que eu estava enlouquecendo. Não tinha muito o que fazer para me defender – eu havia passado muito tempo trabalhando e ganhando dinheiro, mas o que realmente faria diferença, que é viver boas emoções com eles, havia se perdido para sempre; construí um castelo sem alicerce, e ele desmoronou. Ela, sendo uma divisora clássica, se colocou entre meus filhos e eu como a reta do símbolo da divisão. Eles preferiram dar razão à mãe. Naquela noite peguei essa mochila com algumas coisas e saí, para nunca mais voltar. Já se passaram dez anos e jamais quiseram saber absolutamente nada sobre mim. Eles acham que surtei. Desde então, sinto revolta da forma como algumas pessoas tratam o dinheiro e resolvi que não dependeria mais dele. Não vou dizer que vivo totalmente feliz, mas o estilo de vida que tenho agora é um tipo de vingança que faço com tudo isso; deixei de ser escravo do luxo, e assim é até hoje – concluiu João Batista.

       A viatura chegou ao hospital, mas o Homem do Fogo desejava passar mais horas ouvindo o João Batista falar, com suas sábias palavras e português clássico e formal, porém a ocorrência acabava ali e teriam que se despedir, pois mais vítimas precisariam daquela viatura.

       Enquanto os outros bombeiros passavam o caso para o médico, o Homem do Fogo chegou ao lado da maca e foi se despedir.

       – João, obrigado por ter dividido sua história comigo. Boa sorte no tratamento da perna. Posso fazer uma coisa antes de ir embora? – é muito importante pra mim.

       – Claro que pode bombeiro! – respondeu o morador de rua.

       O Homem do Fogo se aproximou da maca e deu um abraço caloroso e carinhoso naquele homem barbudo, com as roupas sujas e fedorentas. Agora, era indiferente a condição em que sua vítima estava, pois a paz na consciência falava mais alto. Foi então que imediatamente, toda a culpa causada pelas palavras maldosas se dissolveu dando lugar a uma sensação de muita paz e amor. Os dois se emocionaram despedindo-se como velhos amigos. Enquanto a viatura voltava para o quartel, a cidade acordava, com seu ar puro e ruas não tão silenciosas agora. O sol começava a clarear.

       No final da tarde o Homem do Fogo resolveu visitar seu novo amigo no hospital. Ao falar o nome do paciente as enfermeiras disseram que o homem havia saído durante a troca de plantão, silenciosamente, sem que percebessem, mas que estava bem e já havia sido medicado. O Homem do Fogo agradeceu e saiu. Prometeu para si mesmo que nunca mais julgaria ninguém pela aparência.

autor: Geison Matochi

foto: divulgação / internet

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com