Crônica #3 – A Visita da Morte

Crônica #3 – A Visita da Morte

#3 – A Visita da Morte
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #3 – A Visita da Morte

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     Vai, vai, vai! Siga pra Raposo Tavares! Corte caminho por aqui! Esse cara não vai dar passagem pra você, pegue a faixa da direita mesmo! Cuidado com o cara da moto! Central no QAP? Passa um ponto de referência, já estamos na rodovia! Quantas vítimas são? Peça apoio do resgate da Viaoeste!

       Em meio à sirene e a gritaria toda, o Homem do Fogo se esforçava em manter a atenção na direção da viatura e ao mesmo tempo processava as informações transmitidas pelo rádio que não parava de tagarelar, definindo mentalmente o que iria fazer ao chegar no local do acidente. Qual equipamento pegaria primeiro? Qual a gravidade das vítimas? Será que seria fácil cortar o carro? Será que teria fogo? As perguntas dele para ele mesmo surgiam conforme se deslocava pela rodovia.

       A primeira viatura encostou. As pessoas presentes na cena do acidente sentiram-se aliviadas, pois os profissionais de emergência chegaram.

       Dois veículos haviam colidido frontalmente, um dos motoristas com ferimentos moderados e o outro grave preso nas ferragens; a gritaria continuava, agora com o barulho dos motores das viaturas e dos alicates hidráulicos para corte de ferragens, bomba do caminhão de incêndio e os gritos da vítima – esse o mais terrível dos sons. É o som que obriga os Homens do Fogo a trabalharem rápido e ao mesmo tempo devagar a ponto de não errar a tomada de decisões; o erro custaria a vida da vítima e a demora em retirar as ferragens dela também. O planejamento e táticas de ação adotadas nos treinamentos mostram sua eficiência nesses momentos. Ideias vão surgindo e uma delas sempre acaba funcionando perfeitamente quando várias mentes trabalham para o bem de uma.

       Corte aqui! Alguém pode pegar um cobertor para proteger a vítima, vai estilhaçar caco de vidro do para-brisa! Cadê o oxigênio! Agora têm espaço, vamos colocar colar cervical! Traz logo o extensor hidráulico – as pernas estão presas em baixo do volante! Pede apoio do Suporte Avançado da concessionária porque a vítima está grave! Vai logo com isso! Um, dois, três, vai! Coloque no chão!

– Chefe, os sinais vitais pararam!

– Vamos reanimar!

       Nesse momento o Homem do Fogo sentiu a presença de uma força espiritual, talvez seu anjo da guarda, talvez as mãos do Próprio Deus coordenando cada profissional presente. Essa Força injetava em cada um dos socorristas uma carga altíssima de adrenalina, persistência e foco. Mas ele nunca entendeu isso. Ele não se definia como um cara religioso, não frequentava igreja alguma, porém essa Força sempre esteve com ele em todas as ocorrências e ele confiava Nela.

       A Morte também chegou. Ela se posicionou perto dos carros e respeitosamente ficou observando o empenho de todos contra ela. Algumas vezes eles venceram fazendo com que ela partisse de mãos vazias; porém, muito sábia e existindo desde a criação do mundo, permaneceu serena e calma. O Homem do Fogo a sentiu por perto e percebeu que as chances da vítima diminuíam a cada minuto, mas sua consciência gritava: Continue! Continue! Não pare!

       Os ciclos de reanimação cardiopulmonar aconteciam um após o outro enquanto a Morte observava tudo, aguardando seu momento de atuar.

       Foi então que de algum lugar do universo partiu a ordem vinda Daquele que têm autoridade sobre a vida e sobre a morte. Nada é por acaso, nada é acidente e tudo é orquestrado pela Inteligência Infinita. A passagem daquela pessoa por esse mundo chegou ao fim e será assim com todos, até com o próprio Homem do Fogo. A Morte educadamente se achegou, recolheu a alma da vítima, e partiu.

       Equipes de resgate e emergência não aceitam perder fácil; eles massagearam, revezaram, ministraram oxigênio, colocaram a vítima na viatura do médico, a equipe de Suporte Avançado investiu, a vítima foi entubada e partiram para o hospital. Lá, minutos mais tarde, seria atestado o óbito.

       A sensação de perda sempre incomodou o Homem do Fogo. Ele se sentiu impotente, pois todo o seu treinamento, conhecimento e equipamentos não conseguiram atingir a meta da missão que era salvar aquela vida. Mas não competia a ele decidir se a vítima viveria ou não, mas tentar e tentar e tentar até que algum sinal vital estivesse presente. Infelizmente naquela noite, a morte saiu vencendo.

autor: Geison Matochi

foto: Alberto Takaoka | albertotakaoka.site.com.br

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com