Crônica #2 – Bombeiro Não é Profissão

Crônica #2 – Bombeiro Não é Profissão

#2 - Bombeiro Não é Profissão
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #2 – Bombeiro Não é Profissão

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       Certo dia um garoto foi até um posto de bombeiros desejando conhecer melhor o processo para ingressar na corporação, saber como eram as provas e a experiência de trabalhar ali. O Homem do Fogo prontamente o convidou para entrar, ofereceu um café e se encostaram em sua viatura preferida, um Auto Bomba Pierce.

       – Ano que vem faço dezoito anos e estou procurando uma profissão legal, estabilizada financeiramente, afinal ser funcionário público hoje em dia garante segurança e benefícios para a vida inteira, e deve ser muito legal trabalhar como bombeiro, não é? – perguntou o rapaz.

       – Ganhar a vida como bombeiro está longe de ser profissão. Se você procura estabilidade financeira e um “servicinho suave pra garantir o seu no final do mês” aqui não é o lugar meu jovem.

       O garoto ficou um pouco sem graça com a resposta, mas só sairia dali com alguma informação útil e disparou sua segunda e última pergunta:

       – Porque o senhor decidiu ser bombeiro?

       – Quando decidi ingressar no Corpo de Bombeiros não o fiz por questões financeiras, pois se fosse, não compensaria; o fiz por questões de realização pessoal, admiração, ter um propósito de vida e uma razão para estar nesse mundo. Ser bombeiro é uma forma de exercer minha essência. Aqui dentro nossa vivência diária nos torna imunes a acordos desonestos, esquemas de ganho fácil, ilicitudes, desvio de verbas, corrupção, ostentação fútil de poder, superfaturamento, mensalão, caixa dois e outras artimanhas comuns e típicas para determinadas pessoas em determinadas funções. Alguns fazem disso um costume, mas pra mim isso revela uma fraqueza – são seres infelizes vencidos pela mesquinhez e materialismo. Dentro de um quartel a coisa é bem diferente. Sempre estive ciente do risco de sair para uma ocorrência e nunca mais voltar, mesmo assim ao invés do medo sinto vontade de dar o melhor de mim e aproveitar a aventura que cada salvamento concede. O costume de abrir mão de meus próprios interesses para defender os de outros sempre foi algo presente em meu dia-a-dia; alguns irmãos de farda o fizeram com o sacrifício da própria vida. Deixei pessoas que amo durante feriados importantes como natal e ano novo, vendo os fogos estourarem à meia noite vestindo minha farda, no pátio, tendo as viaturas como companheiras; várias vezes tive que sair e me deparei com violência, morte e tragédias enquanto as famílias se reuniam para a ceia. Iniciei meus plantões nas horas determinadas, muitas vezes sendo necessário ficar pra mais e manter meu foco, profissionalismo e dedicação, independente de receber um centavo sequer por hora-extra, tendo de abdicar de compromissos pessoais e momentos com minha família.

       Em meio aos motivos que se seguiam dando mais força a sua resposta, o Homem do Fogo lembrou-se de algumas ocorrências, alguns colegas importantes em sua vida e as várias experiências valiosas que sua carreira tinha lhe concedido até aquele instante. Com um sorriso simpático e satisfeito ele concluiu:

– Ser bombeiro não é profissão, é um estado de espírito, um sacerdócio, um tipo de religião. O fato de usar essa farda e estar dentro de uma viatura não quer dizer nada; o que realmente têm relevância são as atitudes, o coração, a abnegação, a coragem, o desprendimento e a vontade de servir. Há pessoas que nunca apagaram um incêndio ou entraram em viaturas, mas guardam dentro de si esse mesmo espírito; outras passam anos de sua vida dentro de um quartel reclamando de tudo porque nunca souberam sentir a essência disso. É engraçado, mas acontece algo interessante durante as ocorrências: um consegue entender o que o outro precisa através de olhares e movimentos; é um tipo de comunicação que não exige palavras, mas afinidade nos mesmos desejos e pensamentos. Isso se desenvolve naturalmente com o tempo, nas vinte e quatro horas de cada plantão, dia após dia. Às vezes também falhamos e reconhecemos nossas fraquezas como homens, mas damos mais importância à união, à soma das pequenas forças de cada um, transformando a equipe em um gigante invencível. Por isso o nome Corpo de Bombeiros entendeu?

       O garoto satisfeito e profundamente emocionado com a resposta, sacudiu calorosamente a mão do Homem do Fogo, lhe deu um forte abraço e se despediu certo da profissão que escolheria para o resto de sua vida.

autor: Geison Matochi

foto: divulgação / internet

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Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com