Crônica #1 – Nos Bastidores do Afogamento

Crônica #1 – Nos Bastidores do Afogamento

#1 - Nos Bastidores do Afogamento
Crônicas do Homem do Fogo,

Crônica #1 – Nos Bastidores do Afogamento

facebook

       O dia estava tranquilo – viaturas conferidas, pessoal espalhado pelo quartel, uns lendo, outros vendo tv, outros conversando sobre suas ocorrências no pátio, enfim, um plantão como qualquer outro. A ociosidade foi interrompida por uma ligação informando que havia ocorrido um afogamento; o Homem do Fogo largou o jornal e se dirigiu a sala de mergulho para ajeitar os equipamentos.

       Uma descarga de sensações dominou seu corpo; uma mistura de medo e ansiedade borbulhavam suas ideias, exigindo que o autocontrole assumisse logo sua função. Ele se preparava para realizar mais um mergulho.
Chegaram ao local. A viatura encostou, a poeira foi abaixando e eles foram espalhando as coisas no chão, em uma lona. Cilindros, lastros e toda a tralha necessária para uma ocorrência de afogamento eram silenciosamente posicionadas uma ao lado da outra. Enquanto se equipava e ia canalizando a adrenalina a seu favor, percebeu os olhares costumeiros em sua direção – curiosos, imprensa, amigos e parentes da vítima e por último uma senhora emocionalmente perturbada – deve ser a mãe, pensou – e por alguns segundos ele se lembrou da sua própria mãe e de como seria a reação dela se ele fosse o afogado; antes que fosse contagiado pela parte emotiva, se concentrou novamente e terminou de se equipar.
Entrou na água, realizou os últimos ajustes e abaixou a máscara; um companheiro perguntou do barco: tudo ok? tá pronto? Ele acenou com a cabeça, mordeu sua válvula e desapareceu da visão de todos.

       Enquanto foi descendo sentiu a água ficar cada vez mais gelada e escura; seu coração ficou ligeiramente acelerado enquanto penetrava no desconhecido. De repente sentiu o lodo envolver suas pernas e nadadeiras quase até o joelho. O sedimento subiu e tudo virou completa escuridão; Beleza! Cheguei no fundo! – exclamou mentalmente.

       Seguindo a orientação de um grande amigo, Homem do Fogo veterano já aposentado, o mergulhador fez uma breve oração pedindo humildemente para que as forças espirituais do bem fornecessem a ajuda necessária para o sucesso de sua missão; suas emoções acalmaram e uma leveza tomou conta de seu corpo e de sua mente. Estava pronto para começar.
A água era tão escura que ficar de olhos abertos ou fechados daria na mesma; ele preferiu fechar para não se distrair com as figuras macabras criadas pela movimentação dos sedimentos no fundo do rio; nesse momento as mãos se transformam eficientes instrumentos de navegação. Troncos, garrafas, galhos de árvore e todo o tipo de lixo um dia jogado na água serão rapidamente tocados, analisados e jogados de lado enquanto as nadadeiras vão se mexendo rebatendo a sujeira toda.

       Na superfície, as bolhas que subiam anunciavam o andamento do serviço sendo o alvo de todos os olhares, principalmente do pessoal do barco, responsáveis pela segurança.

       Os minutos passavam e sua mão tocava um galho de árvore: ele era apalpado e jogado de lado – só um susto. Outro susto e mais um galho afastado. Quando menos esperava encontrou um que tinha uma superfície diferente: ao apalpar cuidadosamente, seguindo seu comprimento, sentiu a textura de uma calça e após, um cinto. Isso foi o sinal que precisava para ter a certeza do fim de seu mergulho. Seu coração acelerou num ritmo frenético e uma nova descarga de sensações o dominou – era a velha mistura de pavor fundida com uma agradável sensação de dever cumprido, de missão terminada.

       Seguindo ainda os conselhos do veterano, fez uma oração agradecendo pela ajuda que teve, afinal, homens são feitos para viver na terra e não na água, e ele estava lá, valendo-se de um cilindro de ar, enfrentando as forças implacáveis da natureza, se arrastando entre o lodo e todos os dejetos que o próprio rio resolveu esconder em seu fundo.

       Ele segurou o corpo encontrado e cuidadosamente o posicionou para iniciar a subida; deu uns toques na corda e o pessoal do barco começou a puxar, comentando um com o outro: “o filho da mãe achou!”. Esse é o momento mais glorioso que um mergulhador de salvamento pode ter: relaxar e se soltar, sentindo a suavidade da água passar pelo seu corpo, podendo respirar aliviado o resto de ar que lhe resta, pois sua faina chegou ao fim. Toda a tensão ficou pra trás; agora tudo é glória, tudo é satisfação de dever cumprido. Sentindo a água aumentar de temperatura e a escuridão se revelar em claridade, finalmente chegou à superfície.

       É estranho ele se sentir satisfeito numa condição dessas, mas se não fosse assim aquela mãe passaria a noite toda na beira do rio, e no outro dia de novo até poder velar dignamente o corpo de seu filho. A equipe de mergulhadores atenuou um sofrimento que poderia durar mais um dia. Às vezes semanas.

       Ao sair da água somente os companheiros de guarnição o olhavam, pois agora a atenção estava voltada para o choro da mãe, consolada por amigos e familiares, enquanto o corpo era retirado da água pela funerária. Enquanto isso, os equipamentos foram recolhidos, tudo foi colocado na viatura e eles partiram em silêncio, como se estivessem dando sua parcela de condolências ao afogado.

       A viatura retorna ao quartel com homens satisfeitos com o sucesso de sua missão. Mal eles sabem, mas é dessas experiências que eles aprendem a valorizar cada vez mais o magnífico dom de estar vivo.

autor: Geison Matochi

foto: acervo Corpo de Bombeiros de São Paulo – 15º GB Sorocaba

facebook

Crônica #1 – Nos Bastidores do Afogamento

Geison Matochi

Geison Matochi é profissional de salvamento, colunista do blog “Salvamento Brasil” e do canal “Geison Matochi” no Youtube, onde publica conteúdos técnicos para profissionais de resgate e salvamento, e vez ou outra alguma piadinha fútil. contatos: whatts +55 (15) 99143-0679 / gmatochi@gmail.com